19.12.16

Miniaturas

A professora do mais novo compra tudo o que é miniatura. Se é pequenino é bonito, diz ela. Já viu esta torrezinha dos Clérigos, que perfeição, que amor? Sabe que é tolice, não há serventia alguma naquela montra de chinesices que alinha em aparadores, oratórios e cristaleiras e, por tuta-e-meia, engorda a cada semana. Mas ter vícios é de gente normal e ao menos este não mata nem endivida. De resto, ela é uma professora eficiente, a canalha anda com letras e contas na ponta da língua, certinha e bem preparada para o futuro conforme o predizem. 
Com a professora do mais velho, a cantiga era outra. Compreendia, sinceramente, que os olhos das crianças sãs, curiosas, acordadas, mais se importam com o trajeto de uma formiga desalinhada do que com uma soma de frações. Desprezava, sem esconder, as mães para quem a hora da quantificação das virtudes dos filhos era a mais decisiva. É só uma prova, por amor de Deus! Mas já a inocência das criaturas estava irremediavelmente adulterada e, com a purga das ansiedades, encharcava-se o recreio de vómitos e lágrimas. 
Esta mantém a sala bem organizada, ao jeito dos aparadores, oratórios e cristaleiras onde dispõe meticulosamente as miniaturas. Há objetivos. Nenhuma graça ou talento desculpam acentos tortos ou contas mal feitas. Os pequeninos são lindos, mas têm um lugar que deve ser cumprido. Até confio na ternura dela, no cuidado com que trata, no esmero e mais ainda na competência técnica. Mas, em boa verdade, o modo como o mais novo papagueia, sem vacilar, determinante artigo indefinido plural masculino não é coisa que me impressione ou tranquilize particularmente.