28.12.16

Esforço

Com a desculpa de terem de adormecer os filhos, as mães aninham-se com eles em camas de um corpo só e sucumbem ao cansaço debaixo de estrelas fosforescentes, embaladas pelo próprio canto, certas do único amor que lhes é dado sem reserva ou condição. Uma, duas horas depois, acordam, aflitas pelo descuido a que se deram. Algumas dizem-me que encontram a vida exatamente como antes do sono: a loiça amontoada, as sobras ainda nos pratos, o lixo aberto, os maridos cavando o seu lugar no sofá e lamentando que não passe nada de jeito na televisão. Estás cansada? Eu também. Senta-te aqui comigo. Não sentam, não podem. Vão fazer o que tem de ser feito. Eles ficam. 
No dia seguinte eles preparam um arroz branco e dois bifes e elas falam disso a toda a gente, como quem louva um atrasado mental que venceu mais uma dificuldade e cujo esforço deve ser aplaudido.