30.12.16

Escrever

Escrevo para suspender o mundo quando a marcha é veloz e hipnótica. Não presumo ver o que outros não tenham visto nem sequer pensar sobre o que a outros tenha escapado. O universo é de todos e tão escancarada a sua maravilha e evidente o seu absurdo que só quem dorme não se deslumbra, não se ajoelha, não se comove, não se inquieta, não teme. Mas Deus não faz a ninguém o favor de parar tudo e permitir uma vagarosa e detalhada contemplação. Se nos desse tempo para entender, estaria Ele condenado. Então eu escrevo para O desautorizar. E faço-o com o gozo próprio de um vulgar capricho, com a ligeireza de um gesto avulso que, por não ter consequência, jamais terá de prestar contas. Depois, lavo as minhas mãos, retomo o andamento e é como se nada tivesse acontecido.