15.12.16

Como novo

O senhor Pereira estranha ver-me passar de cara fechada. O seu coração de pai, que só por obstinação não beneficia dos devidos afetos, desassossega-se.
- Então, menina?
- Cá vamos, senhor Pereira.
- Más notícias?
- Oh, não.
- Problemas no trabalho?
- Felizmente, também não.
- São os filhos que a cansam, pois claro.
- De forma alguma!
Farto de bater em vão às portas cerradas da minha intimidade, apoia-se na sabedoria popular:
- Olhe que tristezas não pagam dívidas...
- Tenho as contas em dia...
Suspira, enfia as mãos nos bolsos, levanta duas ou três vezes os calcanhares num balanço que é próprio dos homens em convívio social.
- Menina, seja o que for que a incomoda, esqueça.
O esquecimento é um dom. O senhor Pereira tem-no e por isso, dia após dia, tudo se ajeita no seu interior. Como novo, a cada manhã. Quem o vê, confia sem pé atrás na possibilidade de sermos felizes em absoluto. O ontem é só poeira. Não o soubesse tão materialista e submisso – quase escravo – , tomá-lo-ia como um espírito de elevada sabedoria. 
A uma vulgaridade, respondo eu com outra pior:
- Ah, sim, nada que o tempo não cure.
- Vou dizer-lhe uma coisa, porque vocês, jovens, não valorizam o que têm e às vezes é preciso dar-vos um abanão: eu se tivesse a sua idade não desperdiçava tempo com tristezas.
Vou para lhe dizer que até nem estou triste, foi só um dia ingrato, desses que de vez em quando nascem para nos açoitar até ao pôr do sol, lembrete das nossas fraquezas e dependências. Palmadas miúdas, é certo, mas várias de uma assentada deixam tudo em carne viva e só uma noite bem dormida, com sonhos amáveis, repara. Porém, antes que eu me lance em explicações – bem mais simplistas do que aqui descrevo – ele tira o smartphone do bolso com a vivacidade e o entusiasmo de quem foi assaltado por uma boa ideia.
- Vou-lhe mostrar uma coisa. Vai-se alegrar num instante!
Anda para trás e para a frente com o indicador no écran e um sorriso de paixão juvenil põe-lhe os olhos miudinhos.
- É esta. Não, não é. Espere lá, eu sei que está por aqui. Olhe, ei-la!
Extasiado, vira para mim a imagem de uma carrinha prata, luminosa, respeitável logótipo entre um jogo de faróis a lembrar olhos felídeos. 
- Tenho-o em janeiro. Ano novo, carro novo! Quer dizer, não é novo, novo, novo... mas está como novo. Diga lá se não é um espetáculo!
Tolo o senhor Pereira de julgar que um automóvel havia de me alegrar. A gente passa pelas pessoas todos os dias, aperta-lhes a mão, troca impressões, opina sobre isto ou aquilo, e, no fim, o que sabem de nós é pouco ou nada, inúteis os sinais que demos, aquilo de que nos rimos com menosprezo ou o que de verdade nos espantou. Cada um vê no outro o que quer: um pedaço igual a si, um espelho, qualquer coisa que o consinta e faça eco. 
Num assomo de frustração e ironia, ocorre-me comentar se eu tivesse a sua idade não desperdiçava tempo com futilidades, mas depois lembro-me que hoje já servi uma dose farta de palavras mal ditas. É deixar ir o senhor Pereira em paz, que as culpas dele não me desculpam a mim.