11.11.16

Na manhã seguinte

Não tenho dados nem certezas, mas creio que a morte prefere chegar durante a noite. Clinicamente falando, pode ser pelo mesmo motivo que se agravam as tosses, as dores ou as febres: porque a vulnerabilidade dos organismos aumenta quando o sol se põe. Prefiro pensar que, por misericórdia, a morte não quer ser vista. Que se disfarça nas sombras e se confunde com os ruídos que a imaginação amplia e deforma, o grito de uma ave de mau agoiro, o choro de um bebé sem consolo, o arfar urgente de dois amantes, o ladrar vagabundo de uma matilha, a premonitória tensão dos gatos, a folhagem varrendo o parapeito da janela. E entre o pavor da existência, a sobredimensão do trágico, o remoinho de todos os mistérios do universo, quem desconfia, quem dá por ela, se tão bem encaixa? Não a vendo, ninguém ergue resistência. Não há lugar a combates vãos e desiguais. A dor dos outros acorda na manhã seguinte, sem ter testemunhado o pior. É quando Deus corre a desculpar-se, estendendo o seu braço de luz para dizer que a vida continua.