10.11.16

Eppur si muove

- Já viu? Um tipo daqueles, um anormal, uma besta... como é possível? 
Fiel seguidor de vários canais de televisão, atento aos lençóis opinativos que se estendem para aconchegar os indecisos ou ignorantes, é capaz de repetir tudo o que já leu e ouviu com tiques, termos e interjeições iguais. Blá blá blá blá blá. Não esperava outra coisa. É o senhor Pereira de sempre, uma estaca empedernida, um papagaio engasgado com excesso de informação, as rugas e o ranger dos ossos acentuando-se sem originalidade ou sabedoria. O discurso, que a mulher foi validando com acenos de cabeça, terminou num gesto largo, inspirado, dramático, e no pior dos clichés: o mundo como o conhecemos tem os dias contados. 
Simulo inocência e espanto: ai, credo, isso está na Bíblia? A mulher do senhor Pereira revira os olhos baços, amarelados, de pálpebras frouxas. Sei que lhe falta paciência para os meus comentários e, de quando em vez, precisa de respirar fundo para não me mandar plantar batatas nesse interior pasmado e ignorante onde nasci.
- Lá está a menina, não leva nada a sério... - diz ele, descontente, puxando os ombros à resignação.
Senhor Pereira - não lhe digo - eu de facto só conheço um mundo, tem biliões de anos, é o mesmo que Fernão de Magalhães descobriu por um acaso ser redondo, que Copérnico provou não ser o centro do universo, que Galileu jurou baixinho que se movia. É ainda o mundo onde desde sempre os homens se curvaram a outros homens, onde territórios se ganharam e perderam consoante as ganâncias e dos medos, onde por ordens imaginárias dos deuses se cometeram crimes, corromperam crianças, violentaram mulheres, assassinaram crentes, onde a fome de uns deu de comer a outros, e a glória de alguns custou o sacrifício de muitos. É o mundo onde a ignorância é conforto, o consumo é paliativo, a opinião é entretenimento. É o mundo onde o bem sempre foi imposto pela via do mal e por isso não pega nem medra. O mundo que a Igreja nunca salvou, nem a Europa civilizou, nem a América protegeu, mas que tão perversamente soube alimentar a ilusão do contrário. É, com efeito, o mundo onde a etiqueta se pode aprender até pela internet e onde as leis têm vindo a regular os atos dos homens mas jamais poderão evitar que as suas emoções, desejos e vontades sigam por atalhos onde a justiça não é apenas cega, mas também surda, muda e coxa. Está a dizer-me que tudo isso que existe desde que o mundo é mundo, o bicho é bicho e o homem é homem, tem os dias contados?
Desconhecendo os meus pensamentos, a mulher do senhor Pereira aperta-lhe o braço, espeta-lhe as unhas como quem se agarra ao pouco que tem de segurança e valor:
- E aquele modo de falar, aquele cabelo, aquela pele? É nojento! É nojento! É NO-JEN-TO! Cá para nós que ninguém nos ouve, espero que alguém acabe com ele.

(Sou uma cética de nascença. E isso, pese embora o facto de me manter a esperança em níveis mínimos, também me livra dos contagiosos horrores do pessimismo.)