3.10.16

Reverso da virtude

A menina, por mais anos que passem, há de parecer sempre uma menina.
É assim que o senhor Pereira me faz saber que não tenho motivo para preocupação. Fica claro que é inocente o modo de me afagar o ombro, que só há ternura no beijinho repenicado, que é de orgulho paternal o elogio ao meu corte de cabelo ou à roupa que levo. 
O senhor Pereira só fraqueja diante das mulheres. Mas para aos seus olhos ser mulher, é preciso ser distante e superior. Bater os tacões, avançar o peito, cumprimentar de fugida, olhar de lado, mover-se como quem chama. É preciso ter uma virtude escancarada e o seu diabólico reverso. A viúva de corpo selado e lábios muito vermelhos, a afrodite tatuada, a doutora com gosto de humilhar, só essas são mulheres. Eu sou uma menina. E a minha meninice proteger-me-á dos seus delírios. Não espreitará o meu decote nem se embalará ao ver-me passar. Não hei de provocar-lhe tensão, sonho e sofrimento ao mesmo tempo.  É por isso que lhe digo sem receio o quanto me agrada encontrá-lo. Mole e inofensivo, dá-me a palmadinha habitual no rosto: a menina é uma querida. Nem imagina que é do mote para uma história que estou à espera. Eis o reverso da minha virtude.