13.10.16

Órbita

No final do dia de ontem, assisto a uma inesperada desgraça que, por solidariedade, tomo como se fosse minha, perdendo o sono e a quietude. 
Ah, não bastassem os aguaceiros e as trovoadas, a crescente antecipação da noite, o véu melancólico que cobre e uniformiza todos os rostos, ainda acontecem outras coisas, indiferentes aos ciclos, estações, climas e estados. Pouco importa a Deus ou ao Destino que, para alguns, o cansaço de viver já tenha levado a melhor. E pouco importa que se creia num ou noutro, já que nenhum se faz notar com bom conselho ou carinho na hora do desespero. Antes dá mais um aperto, um beliscão, joga um imprevisto, provoca um equívoco fatal, de preferência num dia de paz, desses em que se admite baixar a guarda e reaver a esperança. 
Quem está vivo que aguente, puxe pelos braços, invente forças, desenterre coragem, pinte quadros, escreva poemas, cante versos, faça discursos. E que se matem uns poucos para que muitos, assustados, redobrem forças na fuga à tragédia. E que uma minoria tenha a paz, a sorte, o prémio, para semear a crença geral de que, perseverando, tudo melhora. Assim a dor faz o mundo girar na sua órbita.
A quem servimos com este espetáculo cíclico de luzes, sangue, comédia e lágrimas, que faz a noite suceder ao dia e arranca a folha depois de dado o fruto?