26.10.16

O tempo deles

Pelo cheiro das alvoradas, o mais novo sabe o tempo que vai fazer. Quando lhe pergunto se choverá, abre a janela, fecha os olhos, respira fundo e avisa: sim, mas só de tarde. Ou vai limpar e vem aí calor. Nunca se engana. Às vezes brinco com ele, digo-lhe que é como os velhos, que têm os indícios do tempo nas dobradiças do corpo. Com legitimidade, ofende-se, alegando que, no seu caso, não se trata de uma condenação mas de uma arte. Já lhe sugeri que aprendesse o método de interpretar as nuvens, de onde se recolhem infalíveis previsões com razoável antecedência. Mas, ao contrário do mais velho, este não é de andar com a cabeça lá em cima. É um bichinho da terra, um escavador, um colecionador de objetividades. À custa do tato, do toque e do faro faz o percurso, decifra o segredo e fabrica o ninho. Por isso não me larga o colo e ainda tem ganas de enterrar o nariz na curva do meu pescoço. Ri-se das asas do irmão, com um menosprezo sóbrio e desconcertante, lembrando-lhe as quedas em que sempre culminam os grandes voos. 
E enquanto um adivinha, sem erro, o tempo que vai fazer, o outro sonha com o dia em que se há de fazer o tempo desejável. Fazem-me os dois muito jeito neste andamento incerto e desesperançado que, às vezes, a vida tem.