18.10.16

Exercícios

Já lá vai o tempo em que o mais velho fazia exercícios de matemática ao som de Bach e, por favor, que ninguém lhe interrompesse o raciocínio ou lhe tirasse os auscultadores dos ouvidos. Depois entrou nele à má-fé a adolescência, por todas as portas que a infância deixa inocentemente escancaradas - pele, alma, nervos, sentidos. Começou a correr-lhe nas veias um sangue obstinado e transformador e o ritmo da sua respiração pôs-se em dissonância com o dos clássicos e nas folhas de quadrícula evidenciaram-se as grades de um cárcere. Subverteram-se-lhe as vontades. As hormonas encorparam-lhe a vocação para o sonho e para a recusa do que é disponível e concluído. Inflamam-se as contradições como as borbulhas. Às vezes ainda o apanho distraído a cantarolar Bach. Achando-se observado, muda a frequência para uma modernice qualquer de rimas fáceis e acordes esquizofrénicos.
Num exercício de memória que me desperta a ternura e a compreensão, lembro o tempo em que a língua portuguesa dissecada no caderno era o pior dos meus tédios e o instante em que o meu pai se sentava na poltrona a escutar ópera e a fumar, a maior das torturas. Mas se, por recordar e me rir das voltas da vida, me ocorresse dizer ao mais velho um dia vais dar-me razão, perder-se-ia o encanto disto tudo.