27.10.16

Epílogo


Desde que se conformou com o facto de eu não lhe dar moeda, o arrumador conta-me histórias. Antes que me suponham má pessoa, inimiga dos coitados, saibam que à hora a que chego a praceta está deserta, sobeja espaço até para acampar, não preciso que ele me acuda. Porém, conhecendo-lhe o vício da nicotina por vê-lo amiúde a vasculhar os cinzeiros públicos, de quando em vez arranjo-lhe cigarros, que ele agradece dobrando-se numa vénia. E dou-lhe conversa, coisa que nunca desvaloriza e muita gente mendiga. É um homem à entrada da velhice. Polido nos modos. Mesmo quando se abespinha, não se lhe ouve comentário ou insulto, deve ser para dentro que enfia as suas raivas. 
Ontem, apanhando-me a sair do carro, contou-me de um lisboeta que veio cá acima para uma reunião e que, depois de lhe pedir conselho sobre os melhores pratos e restaurantes, acabou numa cervejaria, a comer um prego. O arrumador contava-me isto rindo com gozo e desdém: "e eu disse-lhe ó homem, olhe que é preciso ser muito ignorante para vir ao Norte e comer um prego!" Enquanto falava, caminhava ao meu lado devagar, caminhava como um cavalheiro, de mãos nos bolsos, vertical proprietário dos trapos que vestia, das unhas encardidas, da praceta vazia, sem pedir ou reclamar do que lhe falta. Estava certo de me ter como cúmplice, porque cá no Norte, em todo o Norte, quando se trata de rir à socapa de quem vem de fora, não há barreiras nem inimizades. Enfim, é uma mania de superioridade que temos, absurda como qualquer outra mas tão inócua que até enternece. 
Esgotados os comentários e a risota - até mais logo - ele trocou-me por outra senhora que acabara de estacionar e lançou-se no mesmo relato sobre o lisboeta, mas logo às primeiras palavras ela cortou:
- Não pode ser, não tenho trocos.
Ele estacou, alinhou a pala do boné e, com mais gozo do que incómodo, de si para si:
- Esta deve ser das que vêm aos pregos.
Riu gostosamente, exibindo as abertas na dentadura, e voltou ao seu posto de serviço.

Dezembro 2014


- Diga lá a menina: entre um coelho e um porco-espinho com um ano de idade, quem é o mais velho?
Sem paciência para esperar, logo encadeia a resposta:
- O porco-espinho, porque tem um ano e picos!
É o arrumador. Apanha-me debaixo de um aguaceiro, veio a passo rápido, como é seu costume quando tem mote de conversa. Eu a sair do carro, às aranhas por causa das tralhas que me obrigo a carregar, o saco a deslizar-me do ombro, o fecho da mala encravado, o telemóvel a um passo de mergulhar em poça de água, não me sobra mão para abrir o guarda-chuva, menos ainda para fechar as portas. E ele de mãos nos bolsos, feliz de nada carregar, fazendo depender o seu ritmo da história que urge contar e o seu rumo do lugar onde estiver quem a escute. 
Não compreendo este homem. Bem falante, informado, opinando com lucidez e independência sobre o Charlie, o Salgado, a bola e os insólitos do quotidiano, recusando-se à lamúria e à pedinchice, rindo com uma disposição que, pela fresca da manhã, o português não costuma ter e muito menos oferecer. No passo, nos gestos, nos olhos e no hálito não há sinais de vício pesado. Se é por fado, castigo ou escolha que ali anda, amealhando trocos em bolso roto à custa de apontar lugares vagos, tenho ainda por saber.
Andasse a vida sob a responsabilidade exclusiva da imaginação e arrumá-lo-ia eu onde me fazem sentido os seus modos: num distinto palacete, acomodado em poltrona robusta de tecido adamascado, mastigando um Porto vintage, ao lado uma pilha de livros anotados, ao redor dez netos à espera de o ouvir contar ou, em dias mais ligeiros, de saber que motivos há para aprender a rir de tudo isto. E punha-lhe os dentes que faltam e que mais merece quem não deixa enrijecer os cantos da boca.

Janeiro 2015


Hoje não é feriado, mas o país está fechado para descanso do pessoal. Nem o arrumador compareceu no seu posto de trabalho. Conhece o biorritmo da cidade, sabe que hoje só os tolos madrugam. Os outros, os empenhados, os imprescindíveis, os que se atropelam no trânsito e estão dispostos a pagar por um lugar grátis para não atrasarem as suas imensas responsabilidades, não vieram. Eclipsaram-se-lhes as urgências. Nestes dias, só nestes dias, realizam que, afinal, não é por vinte e quatro horas que lhes vão sentir a falta. 
Amanhã retoma-se o desfile, o fato de lantejoulas, o bamboleio das nádegas, a festa dos talentos, a paliativa distorção do nosso papel no mundo.

Fevereiro 2015


- Já ninguém sabe escrever! 
Disse-me, esta manhã, o arrumador. Sacou do bolso uma página de jornal dobradinha em quatro e estendeu-a no capô do meu carro, alisando muito bem os vincos. Primeiro, fui tomada por uma arrogância provinciana, um elitismo de trazer por casa, e pensei não, isto eu não vou discutir com o arrumador. Saí do carro pronta a fazer ouvidos moucos e a dissuadi-lo com o argumento da pressa e de mil afazeres à minha espera. Mas já ele insistia:
- Isto é uma tristeza! 
É que pouco importa ao arrumador a disposição e a pose de quem chega. No meu caso, que não dou moeda, tem sempre fé nos dois ou três minutos de conversa a que costumo prestar-me. É franco, sem disfarce, o gozo que manifesta quando bato com a roda no passeio ou estaciono onde é sabido que por todo o dia o sol baterá sem filtro nem piedade. Também não tem pudor em fazer ironias com as senhoras que estacionam em segunda fila para ir ao salão arranjar as unhas. Disse-me que qualquer mulher devia saber tratar das suas mãos e que aquelas não mais fazem do que pagar para ter com quem conversar, pois toda a gente sabe que essa é a verdadeira serventia de um salão.
À página do jornal já aberta no capô do meu carro, acrescente-se os olhos dele muito agarrados aos meus e o jeito que não tenho para amanhar desculpas. Com tudo isto, bastou-me meio segundo para converter a arrogância em cumplicidade. E dei comigo a rir com uma maldadezinha inócua que é, no fundo, semelhante ao gozo dele quando eu bato com a roda no passeio:
- Ora mostre lá quem é que escreve mal.
- Leia isto!  - levantou a página do jornal com as duas mãos, como quem tira as medidas a um quadro antes de o pendurar.
Pensava eu ir encontrar um erro de palmatória, um vergonha gritante, e afinal era uma daquelas imprecisões com que só os puristas embirram. Quis dar o desconto, mas a falta de convicção pôs-me a gaguejar:
- Bom... talvez não seja propriamente um erro... vendo a frase no seu todo... quero dizer... e a palavra tem aspas.... ou seja...
Ele recuou e sorriu de lado como os garotos:
- Engane-me, que eu gosto! Só usa aspas quem não está para se dar ao trabalho de encontrar a palavra certa. Portanto, só usa aspas quem não sabe escrever. É ou não é? 
A voz cresceu, crescendo-lhe também o peito, insuflado de satisfação e certezas:
- É OU NÃO É?
Há dias em que o arrumador é a única pessoa a quem ouço dizer alguma coisa que valha. 

Agosto 2015


O arrumador refila contra quem veio chamar-lhe a atenção por dar o pequeno-almoço aos pombos. Pôs-lhes a mesa à sombra de uma árvore e desse modo faz todos os dias e continuará a fazer, garante-me. Com efeito, lá estão os restos de pão atapetando a calçada. E o bando, num alvoroço de fazer vento, vai largando penas e outras porcarias sobre os automóveis, que nesta zona são dos bons e tratados com muito afeto.
Arrisco:
- Diz que os pombos transmitem doenças...
- Ora essa! Já viu alguém morrer por causa de um pombo? Sempre lhes dei de comer e olhe para mim. 
Dá uma voltinha. Está velho, mas, ignorando a dentadura, parece inteiro e robusto.
- Ver, não vi, mas...
- Tretas! Todas as espécies da natureza merecem a consideração. 
- É que os pombos depois proliferam sem controlo e...
- E então? O mundo é muito grande, há lugar para todos e é bom que haja de comer também.
Não sei lá por que cargas de água ou forças ocultas, atrofia-se-me o pensamento e a língua na hora de responder ao arrumador. O pouco que digo não presta nem convence. O melhor é desertar.
- Olhe, tenho de ir, estou em cima da hora para uma reunião.
- É, é...

Setembro 2015


Morreu o arrumador. Foi o que disseram os que logo açambarcaram o seu posto para duplicar rendimentos. Olhe, morreu. Com efeito, já não o vejo há alguns dias e, da última vez, fazia a rota habitual, recolhendo sobras nos cinzeiros públicos, atingindo os medíocres, os malcriados e os oportunistas com o seu riso lateral e a sua indiferença. Para mim, que não tenho televisão, o arrumador era o noticiário, o comentador da atualidade, lúcido e incorruptível, o programa da manhã, a crónica humorística que escancara o avesso do mundo. Fiz dele personagem de alguns textos, forma que arranjei de sacudir das costas o peso, a gravidade e o cinismo das suas sentenças.
Talvez tenha regressado à vida antiga, a que eu lhe imagino, num palacete de labirínticas bibliotecas e madeiras nobres, cheio daquele silêncio que enxota os juízos superficiais. Talvez tenha, portanto, morrido o arrumador, mas tenha renascido o homem. A família veio resgatá-lo. Os filhos decidiram perdoá-lo. Apareceu uma prima emigrada há décadas para o levar daqui. Invento estas e outras possibilidades para acreditar numa justiça que salve em terra.
Esta manhã, à porta do edifício, duas senhoras lamentavam este modo de a morte chegar. Ainda outro dia o vi, nada fazia prever... Nada?! Esquecem que quando alguém nasce, a única coisa que traz escrita é o epílogo? Até lá, claro que a morte é muito insuspeita, nem sempre dobra a espinha ou embaça os olhos ou prepara o leito com vagar e grandeza. Cativos do enredo, os mais distraídos tomam-na por traição, mil insultos lhe gritamos, mil pragas lhe rogamos, mil perguntas lhe fazemos. Chegamos ao ponto – miserável – de lhe insinuar que devia ter levado outros.
Nunca dei uma moeda ao arrumador. Nunca temi que me riscasse o carro ou furasse um pneu. Nunca tive pena dele. Mas sei que houve dias em que ele teve pena de mim.