14.10.16

Bob Dylan e um beijo

Eu tinha uns quinze ou dezasseis anos quando o Bruno, apanhando-me com um livro de Eugénio de Andrade, me perguntou se alguma vez eu tinha lido as canções de Bob Dylan. Não. Então devias ler. Mas o Bruno era o totó, o filhote da professora, meio bambo das pernas e atrasado nas hormonas, nem barba nem ombros, só borbulhas e fraquezas, havia de lhe dar ouvidos? Uma vez pediu-me, por favor, que lhe desse a provar a consistência de um beijo. Não via modo de o obter por paixão, ao menos que fosse por generosidade. Um único beijo, um beijo misericordioso, compassivo, só para saber como era. A ti não te custa nada e para mim é muito. E pediu-mo com tal humildade que me comovi e vacilei. Mas porque nunca fui de beijos por favor nem de leituras a conselho, virei as costas ao Bruno. 
Afinal, ele era um visionário. Por onde andará?