19.10.16

Ão, ão, ão

Desce à rua a jovem mulher a passear o cão. Caminha com a pose de passear o cão, veste a roupa de passear o cão, tem o penteado de passear o cão, ri com estilo para o cão, tudo uma exibição, certo na proporção, calculado desde a meia ao travessão. Depois, o cão baixa o rabo e borra o chão. A mulher com pose, roupa, penteado e riso próprios de passear o cão, faz de conta, simula distração. No passeio e no relvado, deixa o cão o seu torrão. Que limpem os que são pagos para essa obrigação. Ela, Deus a livre de sujar a mão! Então, passa o homem que vem para a reunião, caminhando com a pose de quem vem para a reunião, o fato de reunião, a pasta e os papéis de reunião, a segurança de quem vai ganhar a reunião mal disfarçando uma ruga de tensão. Ela olha-o de raspão. Ele atrapalha-se com a visão, perde o rumo e a atenção. E o sapato, que por acaso também era sapato de reunião, acerta em cheio com o tacão na merda fresca do cão. 
Da janela eu aprecio e ganho a convicção: para quê a ficção se o real é perfeição? E que fácil é a rima entre um pavão, uma mulher que se julga um avião e o excremento no chão. Sem arte nem imaginação, retrata-se a confusão. Só falta mesmo dar nomes aos personagens da ação. Para ele escolho Simão, ela fica Conceição. Mas quanto à raça do cão, graças à coincidência, dispensa-se a invenção.