4.10.16

Admito que há um país...

... onde a qualidade de vida é tão magnética que para lá migram os que não se contentam com a mediocridade e a solidão. Multiplicam-se oportunidades e amigos, e para todos os sonhos guardados há uma saída, um palco, um gabinete, um banco, um palácio.
E a paisagem? Ah, a beleza de um horizonte recortado pela geometria do betão! E os cânticos nas ramadas de asfalto? Um buzina, logo outro responde, e outros entram no coro, como os pássaros no seu alvoroço primaveril! E a azáfama organizada dos enxames que zumbem nos hipermercados, nos centros comerciais, nas esplanadas? E quando a noite cai, como é magnífica a cintilância da iluminação pública, capaz de apagar as luzes do céu e as luas do mês. Para notar os ciclos bastam os saldos e as temporadas das séries.
O tempo aqui é um recurso tão abundante que as pessoas podem dar-se ao luxo de gastar uma ou duas horas por dia em repouso dentro dos automóveis, dinamizando as circulares e cinturas internas e externas que ligam os centros às periferias e as periferias aos subúrbios e os subúrbios entre si. Impossível a solidão instalar-se e vingar, pois tudo é construído para a proximidade e o aconchego. Bastam as paredes, os exaustores, os sistemas de ventilação, o alta-voz, para sabermos uns dos outros. E caso o que se sabe seja coisa de assustar, há polícia, bombeiros e hospitais a rodos, que acorrerão como é seu dever, não exigindo cuidados e preocupações aos vizinhos. 
Às vezes, neste país, ninguém consegue dormir. É quase Nova Iorque!
Posto isto, havendo tantas oportunidades, organização, tempo, espaço e convivência, como entender que haja muitos em desespero, desabafando estou farto, um dia destes largo tudo dedico-me à agricultura? Julgam por certo que ser agricultor é ficar na sombra de uma árvore aguardando a queda do fruto e viver com entretenimento semelhante ao das quintas pedagógicas.

(tendo em conta isto)