29.9.16

Visões do amor

A rapariga da papelaria insiste que só há de ser mãe de homens e pede a Deus que ajude, fazendo, não conforme a Sua vontade, mas a dela. Muito saudosa do que ainda tem por viver e que não dispensa a dádiva de um amor fecundo e, de preferência, eterno, inclina a cabeça e olha para os meus filhos, espreguiçando-se num sorriso: eles têm cá uma adoração por si... Vou para corrigi-la, adorar não é o termo, mas desarma-me todo aquele romantismo. Além disso, noto-a cada vez mais descrente. A mudança de visual deu em nada, as velhas lá da rua continuam a querer impingir-lhe homens sem graça nem emoções, é deixá-la ao menos supor, fantasiar.
Ouço dizer que as meninas, a certa altura, tornam-se inimigas das mães, explica-me ela, e não estou para isso. Já os meninos, ah!, tratam a mãe como princesa, rascunham nela as primeiras visões do amor e hão de escolher as namoradas por comparação, lembrados do seio, das papinhas, do cuidado pronto e sábio. Ao dizer isto, cruza os braços sobre o peito, fecha os olhos e embala o filho imaginado que a há de compensar por tanto tempo à espera do verdadeiro amor. Depois, as mãos escorregam até ao ventre, onde deposita a esperança desse ajuste de contas com a vida, e, ignorante e leviana, sussurra-me: invejo-a tanto.
Disfarço o arrepio, deixo votos de felicidade e saio sem lhe dar as costas.