7.9.16

Setembro

Esta semana, a cidade começou a compor-se. O sangue acelerou e a tensão fez renascer os êmbolos nos lugares habituais: avenida AEP, nó da Via Norte, túnel de Águas Santas, nó de Francos. O arrumador recuperou a sua utilidade e anda outra vez com os bolsos cheios de trocado e de beatas apanhadas do chão e dos cinzeiros públicos. As sirenes voltaram a gemer e às oito da manhã já as buzinas gritam por dá cá aquela palha – sai da frente, chega-te para lá, deixa-me passar que sou mais importante do que tu, ó domingueiro. Ninguém diria que esta gente relaxou, amou e se divertiu em agosto tanto quanto jura e exibe. De um dia para o outro, emergiram do fundo da alma os seus tormentos, adormecidos que estavam pelo sal das águas, que tem afamados poderes anti-infamatórios e desobstrutivos. 
As mulheres comentam a queda do cabelo: que outono tão precoce e injusto este, ao engano meteu-se a desbastar penteados em vez de árvores. Perante a insistência da velha mendiga, os homens desesperam, apalpam-se e pedem muitas desculpas por faltarem à obrigação da caridade, que está a ser vigiada por mil sondas. "Não tem dinheiro?", pergunta a velha endurecendo os seus olhos tão bem vestidos de abandono."Como não tem?" E eles prestam contas com detalhe, vulgares subalternos de um poder que respira em todas as ruas mas que ninguém vê. Um deles até abre e mostra a carteira, a jurar que não tem nada. Uma aflição de causar pena."Então veja lá se prá próxima...", ameaça a velha, oh, tão doce e coitada ela é!
Também já se ouve o choro das mães que se preparam para entregar os filhos na escola. Os meus só voltaram agora para casa. Cheiro-os, meço-os, percorro-lhes o corpo com as mãos abertas em busca de mossas, nódoas, atestados de fracasso e medalhas de coragem. Está tudo bem. Já não são os mesmos, olho para cima para falar com o mais velho, preciso de pensar três vezes para entender o mais novo, mas está tudo bem, conforme a natureza dita e eu acato, agradecida.