28.9.16

Sementeira

Eles sustentam o ânimo com futebol. Elas com o diz-que-disse. Noutros assuntos, se alguém os puxar, fingem interesse e até alguma preocupação, envolvem-se na medida do possível, recorrendo a frases feitas para se livrarem de aprofundar o debate, "nada a fazer, é o país que temos""é inútil discutir porque não se chega a conclusão", "não percas tempo a indignar-te". 
Mas é ver como se iluminam e respiram do alívio de quem retorna a casa se a conversa volta a cair na nova aquisição do clube ou em suposições sobre a outra que ali vai. Assim se preserva um bom ambiente, uma duradoura camaradagem que é feita, não de afinidades de alma e intelecto, não de enriquecimento mútuo, mas do consumo dos mesmos paliativos. Nada disto seria tão insano se a maioria não vivesse em permanente temor do que o outro julga a seu respeito, cuidando muito bem dos seus gestos, do modo como atende e sorri, do falso elogio que dirige, da babosa disponibilidade para o favorzinho de circunstância que não dê muito trabalho. 
Há lugares que parece que foram especialmente talhados para sementeira de hipocrisias. Na hora de colher, é o grau de maleabilidade do caráter que determina quem mais açambarca.