19.9.16

Semáforo

De favor e de raspão, beijam-se os casais na despedida. É para isto que misericordiosamente se faz o vermelho dos semáforos e mais tempo não é necessário para elas se apearem e eles reporem os olhos no ponto de fuga da estrada. Motorista e passageira. Pelos lábios se encontram como quem lava os dentes, calça as meias ou faz a cama: corpo e pensamento em dissonância.
Imagino raivas, neuras e egoísmos de quem tem mau acordar. Ou a derradeira vitória do silêncio sobre ajustes de contas quotidianos. Ouvi dizer que se fazem de modo exasperado e insistente até por causa de tampas de retrete. Também me ocorre que se tenham endividado para o carro que os leva, tal como se terão endividado para a casa, quem sabe ainda para as férias sonhadas e que num instante se foram. E o amor - oh, Deus! - afinal não chega para saldar tanto. Amontoa-se então a vida sob a forma de tralha indivisível, assinada por ambos e avalizada pelos construtores de prisões de alta segurança. 
Cai o verde. Pisca o alerta a quem mudar de direção. Eles arrancam, inexpressivos como barro, e já elas viram a esquina com as malinhas a tiracolo, as blusas lisas, sem o rasto de mãos que exploram e desejam a horas impróprias, e o batom por esborratar. Segue cada um com a sua razão, o seu sono e pouco mais. É preciso avançar, é preciso cumprir.
Talvez alguns destes amores se recomponham no final do dia. Se a televisão não falar mais alto, poderão esclarecer motivos, lamber feridas, perdoar o que por impulso ou leviandade se tenha dito. Depois, com o sexo, a bandeira branca e o alívio. E a cama voltará a ser aconchego, ponto de encontro dos sonhos que a mais ninguém se confessa. Já passou, a vida é mesmo assim, um deles dirá. Até amanhã.
Mas outros destes amores, sem remédio, continuarão mudos, pálidos e pavorosos, como um cadáver a quem ninguém tem coragem de fechar os olhos e enterrar de vez.