30.9.16

Retrato

Há coisas que lembro como se fossem retratos. Desses em que, num único segundo, num divino vislumbre, se revela, congelado, o sintoma de todo o absurdo, angústia, paixão, miséria, grandeza ou enigma do mundo. Não sou protagonista de nenhum desses retratos. Mas alguns perseguem-me, aparecem como lembretes depois de uma curva, no despontar da madrugada, ou naqueles instantes em que a tranquilidade me sustém, deliciosamente, na antecâmara de um sono profundo.
Porque a moldura é apertada, nunca recordo o supérfluo: em que dia foi, que tempo fazia, como começou e o que se deu depois. Não há ar, profundidade de campo, paisagem. Não os havia esta manhã, quando vi um garoto da idade do meu filho, bonito, limpo e bem vestido como ele, de mochila às costas, sovando a cabeça da rapariga com quem ia de mão dada. Vi pelo retrovisor, travei de repente, por um triz me bateram atrás, os condutores que me seguiam enlouqueceram, dispararam as buzinas, o garoto e a namorada desapareceram no virar da esquina. Terrível fatalidade: rua de sentido único.
O resto do caminho chorei como não é meu hábito chorar. Começou por chorar, angustiado, o meu coração de mãe. Depois chorou de raiva o meu coração de mulher. E chorou também de medo o meu coração de filha. Por fim, quando estacionei o carro à porta do trabalho, chorei somente como cúmplice. 
E o retrato ficou.