3.9.16

Ausente

Quando o meu filho atravessou a fronteira sem mim e eu andei de joelhos a recolher os destroços do cordão umbilical, onde estavas? E quando me estatelei num beco sombrio e me condenaram a olhar o teto por trinta dias? Onde estava o teu escudo e a tua determinação quando foram disparadas setas contra mim? E quando enfiaram dedos e sondas nas minhas cicatrizes? E quando eu agonizava de todas as folhas estarem ainda em branco, onde estavas? Em que cómodo resguardo te encontravas enquanto eu escalava montes à força de pulso com os meus filhos no colo? E quando adoeci, acaso as tuas mãos me mediram a febre e prepararam o caldo? Nas raras noites de mau dormir, quantas gotas de alfazema pingaste na minha almofada? Onde estavas nos imprevistos e nos dias em que os mortos se levantavam? E, enfim, onde estavas quando o território da minha felicidade se expandia ou quando a luz mostrava os contornos da verdade ou quando eu estoirava a rolha do espumante? Quando fui a melhor, a mais querida, a mais celebrada, onde? Em que chão tinhas os pés repousados quando eu inaugurava caminhos novos?
Apesar de tudo, dedicaste-me a tua vida em sonhos e devaneios. Muitas vezes terás acordado a meio da noite ereto e desnorteado, porque entre as sombras rompeu, iluminada, a visão da minha nudez e do meu cálice. Julgo que chegaste a casar comigo na enorme catedral da tua imaginação e abençoou-nos um coro de anjos que foste buscar a vidas passadas e a suposições futuras. Juraste-me fidelidade diante de um padre sem olhos e desautorizado por Deus. E assim te idealizaste meu guardião, meu amigo, meu amante, feliz de poderes ver a curva do meu pescoço, a prega da minha saia, a aura do meu suspiro. Mas nada disso tem grandeza alguma a não ser quando é dito em verso e pela boca dos poetas.