17.8.16

Uma desilusão

Ando a ler um romance cujos personagens são todos portadores de profundas, rebuscadas e eloquentes teses existenciais. A intelectualidade e a filosofia a martelo. A explicação da vida, da morte, da condição feminina, do amor, da maternidade, do trabalho, tudo sob a forma de sentença. Os diálogos não têm o pulsar espontâneo das verdadeiras conversas. Todos os momentos são iluminados e analíticos. Nada sobra para deduzir, ninguém profere interjeições, ninguém interrompe ninguém, não há dúvidas, reticências ou descontrolo. Em suma, a vida não acontece.
Passa uma gaivota aos guinchos no céu e nem pensar em pôr um homem incomodado a dizer "esta cidade está que não se aguenta de passarada!". Antes: "já reparaste como animal e ser humano vivem infligindo-se tão horríveis torturas, um invadindo o espaço do outro, como se competissem por uma divindade, algo que os transcende e que buscam desesperadamente alcançar? Será o propósito de cada ser, no limite, a extinção do outro?". Há de responder a mulher: "e não crês que aí reside o motor da evolução? Será a destruição, na verdade, o impulso da vida ou mesmo do amor se o considerarmos como uma manifestação de básicos e até predadores instintos?" Passa a empregada e diz "minha senhora, para quem, como eu, nasceu e cresceu no campo e não conheceu vida que não fosse de fome e trabalho, a verdade é outra, talvez mais simples mas não menos importante porque deveras a sinto: as aves resumem aquilo em que nós, humanos, falhamos: a liberdade. Por isso o seu grito ofende. Mas pior, minha senhora, são os excrementos que largam no quintal, eles simbolizam a força de uma espécie que, apesar de desprovida de consciência e razão, tem a mais mortífera e corrosiva de todas as armas. Mas, enfim, que sei eu?, a minha condição é de uma mera criada cuja sabedoria jamais poderá exceder a destreza com que lava os cristais para os banquetes dos senhores". 
A empregada sai. O homem: "Não te parece que há nesta rapariga qualquer coisa de subversão? Porque não a dispensas? São estas as pessoas que precipitam a desgraça social!" A mulher: "Pobre de ti, tão douto porém de tão falível moral! As tuas palavras revelam o quanto temes as mulheres enquanto seres capazes de idealizar e transformar. Recusas o poder do feminino e, com isso, recusas-te a ti mesmo pois não és senão o fruto desse poder! E, de resto, para equilibrar um lar são necessárias forças antagónicas. Sem esta empregada, a nossa família perderia o norte por não ter a materialização dos demónios contra os quais luta e que, no fundo, justificam a sua existência quotidiana."
O outro: "Queres tu dizer que toda a vida é, inevitavelmente, uma luta?" 
Ela: "Talvez, mas és tão óbvio e superficial no modo como o dizes que me sinto desprovida de ânimo para continuar a conversa. Simplificar assim as verdades é ofender a grandeza dos espíritos que as concluíram. Agora vou dormir um pouco. Acredito que o sono é o único estado em que podemos experimentar as vidas a que não fomos destinados. Há quem chame a isso sonhos, eu chamo-lhes existências paralelas e fragmentadas. Felizes os que não recordam o que sonham pois estão livres da angústia de saber que são apenas uma ínfima parte de tudo o que poderiam ter sido."

É inútil ir ao google. Estes diálogos não existem, são uma invenção medíocre e amanhada à pressa para servir de exemplo.  Mas, enfim, não se tire o mérito a este romance que ando a ler. Eu é que não chego para ele.