25.8.16

Um rio

Disse ele:
- Desculpe lá, não leve a mal, sou assim, sou transmontano.
Rematei eu:
- Desculpe lá também, não leve a mal, sou assim, sou duriense.
Ficou a olhar-me, fixo e mudo. Conto que tenha percebido que a raiz é justificação medíocre, recurso de quem se descobre vazio de argumentos e põe fora a responsabilidade. Nem tudo o que nos define nos desculpa. Transmontano, duriense, algarvio, beirão, minhoto... no crime, no pecado ou no sucesso, a terra de onde brotámos está absolutamente inocente. Só na arte ficam bem as geografias do caráter. 
Nem o ermo fraguedo dele nem os meus socalcos doridos são a causa do que, mal ou bem, fizemos e dissemos. No fim, acabámos por nos entender. Bem vistas as coisas, é o mesmo, e de mítico feitio, o rio que nos liga.