8.8.16

Silêncio

Noite dormida. Prato cheio. Cama feita. Luz solar. Contas arrumadas. Memória desempoeirada. Desejos encaminhados. Férias plenas. Trabalho fácil. Espaço livre. Inimigos derrotados. Costas endireitadas. Coração leve e limpo. Respiração profunda. Ninguém me atormenta. Ninguém me está a faltar. Ninguém me deve. 
Por mim, virava-se agora a página do calendário. Está feito o ano. Sete meses vencidos e já apetece celebrar, estoirar a rolha do espumante, regar os tetos, e, uma vez mais, evitar o erro de fazer planos e promessas. Para manter a liberdade de virar no sentido oposto ao da curva provável ou caminhar em direção a um horizonte só em cima da hora vislumbrado. Avançar é o que conta. Tolo é o que se mantém deitado e dormente para poder dizer que sonha muito.
Assim postas as coisas –  sem transtorno, carência, mágoa, raiva, dor, saudade ou preocupação – que motivo há de uma pessoa desenterrar para escrever?