10.8.16

Paralelo 15 N

O senhor Pereira, pois claro! Vem sempre a propósito e, repescando-me algumas fúrias, atiçando as minhas inflamações crónicas, salva-me de cometer excessos de tolerância. Porém, coitado, tão cheio de gentilezas e maneiras de pai, nunca me fez mal algum a não ser o de desenrolar, em cada encontro, o mapa psíquico deste país.
Está agora bem longe, o senhor Pereira. A imaginação mostra-mo de bandulho cheio, torrando na beira de uma piscina, rindo sozinho de um prazer superior, vitorioso e genuinamente feliz. Sorte a dele, que é de poucos. Ainda há dias me confidenciava a menina da EDP que duas semanas de férias são nada: durante a primeira persegue-a o trabalho deixado para trás, na segunda já lhe dói o trabalho por vir. Tormentos destes não aparenta o senhor Pereira. Mantém o jeito risonho e aquele modo de ajuizar com leviandade e distância, como quem nunca perdeu, sofreu, falhou ou penou. Está tudo bem, senhor Pereira? Uma maravilha, menina! E a gente a saber as filhas desavindas, o filho parasitando ao seu redor, a mulher já viciada na resignação e a tentar virar o jogo a seu favor adotando os tiques daqueles que nem perante Deus dão o braço a torcer.
Terá desembarcado e entrado diretamente no autocarro que o levou ao resort. No percurso, às misérias avistadas da janela terá reagido com as mesmas exclamações que solta ao ver os noticiários no aconchego do sofá. Este mundo está perdido! Porém, o mundo está sempre demasiado longe e até quando o senhor Pereira chega perto dele, são quilómetros feitos e nada mais, cada nova realidade se mantém em rota própria, caminho paralelo, estrada que se põe para trás à medida que o autocarro anda para a frente. E? Acaso um homem tem de carregar as dores dos outros sete biliões? O que importa é que todo este mundo perdido ainda tem muito sol, marisco, cerveja, águas turquesa, exotismos, cisnes esculpidos com turcos de banho, sabonetinhos mimosos nas casas de banho, orquestras e bailes pela noite dentro, muitos criados e bandejas. 
Então, o senhor Pereira ao comprido na beira da piscina, provando bebidas de muitas cores, com o olho atrás das nádegas das estrangeiras, fotografando até os ladrilhos do chão para mostrar no regresso. E a mulher a seu lado, em fato de banho, exibindo a inevitável distorção do corpo feminino, que é culpado de nascença e duramente castigado com o tempo. O ventre gordo, os seios mortos, as mãos nodosas, os ossos ocos. A cabeleira negra, avolumada à custa de muito trabalho, é o abajur de um candeeiro sem ponto de luz. 
Mas logo, à hora do jantar, é a ela que ele pedirá ajuda para escolher a roupa e saber o nome do que lhe servem no prato. Dançarão juntos noite dentro, harmonizados na técnica, com o passo muito acertadinho. Nenhum deles tem intenção de calcar o outro. E quem olhar concordará que dão um grande espetáculo.