24.8.16

Microscopia

Duvido que algum dia este blogue se livre do relato das miudezas do quotidiano. É o modo como sei olhar. Não que não dê atenção às coisas enormes, às catástrofes, às mudanças, às polémicas, às descobertas. Mas em tudo o que há de grande, eu gosto de ver o pequenino. Está sempre ao meu lado, no meu dia-a-dia, na minha rua, no meu percurso, no meu trabalho, na minha praia, na minha vista, nas histórias que os meus filhos trazem, até no meu lado negro, a causa de todas as coisas serem o que são.
Os que julgam que vivo alheada ou indiferente ao que se passa no mundo e rola nas notícias, saibam que me agrada mais pensar na semente quando vejo que há sururu em torno da copa da árvore. É nula a utilidade disso, eu sei. Mas, como eu disse, é o meu modo de olhar. Não o escolhi, cresci com ele e acabei viciada. 
Quando penso na mulher que durante as festas abandonou o marido – tão feliz e serena eu a julgava! – e vejo que ele tem de ir à churrasqueira para comer e ouço os seus tormentos noturnos e a sua linearidade diurna, por exemplo, eu descodifico uma parte dos acontecimentos do mundo. Quando a mulher do Senhor Pereira chama coitadinhos aos meus filhos eu descodifico outra. Quando a rapariga da papelaria muda a roupa e o cabelo para atrair o verdadeiro amor, outra. E o arrumador, esta manhã, gesticulando, saltando, apontando, gritando "aqui chefe, aqui!", julgando-se imprescindível à hora em que, na realidade, a praça estava tão vazia que até um comboio podia entrar aos piões! 
A humanidade não precisa de grandes teses para ser explicada. Qualquer bairro serve.