11.8.16

Madrugada

Ainda o sol por nascer e a vizinha sai a passear de trela o gato siamês, perturbando a minha meditação. Supõe-se que nada perturbe quem verdadeiramente medita e, com efeito, já meditei com salvas de morteiro, tempestades diabólicas, arraiais ao virar da esquina, desatinos entre bêbados e euforia de canalha. Mas a vizinha anda de um lado para outro a arrastar os chinelos e a murmurar tolices ao gato, cuidando que mais ninguém a ouve, porque a esta hora só os sacrificados, os insones e os tolos como eu estão a pé. E a minha consciência, quieta e expandida tal qual um lago no regaço das montanhas, agita-se como se lhe desse o vento – lá se vai o perfeito reflexo do infinito na minha profundidade! 
Chego à janela. A iluminação pública ainda cintila e, num quintal próximo, um homem em pijama trata das galinhas. As rolas vêm em bando colonizar a árvore onde em tempos o mais velho tinha a sua fortaleza e marinava sonhos de lonjura e rebeldia. 
Quando o gato siamês aninha o rabo, compenetrado na libertação do que não mais lhe pertence, a vizinha põe-se a rezar bichano lindo que é da dona, bichano lindo que é da dona, bichano lindo que é da dona. E eis a singeleza do quotidiano a ressoar em contra mão, de fora para dentro de mim, galgando sem ponta de esforço a muralha que me salva de morteiros, tempestades, arraiais, desatinos e euforias. 
Por hoje, desisto.