23.8.16

Festas da Nossa Senhora daqui

Terminada a procissão, o povo reconciliou-se com a sua natureza original. Desfizeram-se os arranjos de flores, recolheram-se as velinhas. A fanfarra dispersou e os automóveis tiveram autorização para voltar a chiar os travões e pingar óleo no santo caminho, tão devotamente enfeitado por três dias. Devolveram a Nossa Senhora daqui à penumbra fresca do altar, de onde não pode ver como é rija e persistente a matéria das ofensas que lhe fazem. Os anjinhos desembaraçaram-se de asas e auréolas e voltaram à sua terrena inocência, que se exprime no desacato e no prazer, tem olhos ávidos, joelhos sujos e um sexo que há de vir a ser discutido. O presidente da junta pôde finalmente dobrar as costas, livrar-se do fato escuro e de outras solenidades de ocasião e fazer-se uma pessoa comum, cheia de fome, sede, ganas de abanar o capacete. 
Seguiram todos para a banda oeste da freguesia. Invadiram a estrada principal caminhando aos magotes pelo asfalto, com determinação e euforia, como se um destino de merecidas grandezas os chamasse. Esperava-os na praça meia dúzia de barraquinhas de comes e bebes, geridas por mulheres de muito brio a troco de nada, e um cantor suficiente para reproduzir todas essas pimbalhadas que autorizam novos e velhos a escoar a malícia. Ajoelhou, vai ter de rezar. E a insuspeita marinada em que, por cautela, se preservam as emoções quotidianas, levantou fervura, empurrou a tampa, escaldou as ruas. Pela noite dentro, a gente esqueceu como se leva as mãos ao peito com fervor - pelo menos ao próprio. Cumpriu-se a festa tal qual nos outros anos. O fogo de artifício foi pobre, à medida do orçamento, mas ninguém perdeu o dom de se maravilhar e aplaudiram-no com orgulho, como a mãe aplaude o filho só por ele ser seu ainda que não valha muito.
Muitos homens foram para casa bêbados e andaram às voltas antes de acertar na rua, praguejando com fantasmas e duvidando da sanidade do mundo. As garotas ficaram até mais tarde, deram-se à conversa e à vontade dos rapazes, porque em nome da Nossa Senhora daqui foram alargados os horários e as permissões. Por muitas horas ouvi mulheres debaixo da minha janela entretidas na elaboração de suposições acerca da vida alheia e, deste modo, adiando o regresso à cama.
Nessa noite, outras coisas aconteceram aqui nas redondezas, mas foram abafadas pela chinfrineira do arraial. Por exemplo, uma mulher fez a mala e partiu para sempre com a filha, abandonando o marido aos cuidados da churrasqueira da rotunda. É bom homem, mas muito fraco dos nervos, cheio de cismas e terrores. E o amor não sobrevive a tudo.