22.8.16

Compromissos publicitários

A publicidade é uma ofensa explícita. Berrasse menos e talvez desse para disfarçar, mas tão escancarada e presente... como não perceber? Trabalhá-la só me diverte porque me concentro no processo e me abstraio da intenção e da consequência. Postas as coisas cá fora, nas paragens de autocarro, nas revistas, nas autoestradas, nos intervalos das novelas, envergonho-me e renego tudo. O mais novo, às vezes, aponta com o dedo: mãe, olha o que tu fizeste! Mas o que nele é apenas orgulho, pesa-me como uma acusação. 
Para me consolarem, alguns dizem-me que a publicidade é incentivo ao consumo e que o consumo põe a economia a mexer, sugerindo que afinal eu cá também dou o meu valioso contributo para tirarmos os pés da lama de uma vez por todas. E depois, se não fosse a publicidade, como se saberia das novidades, dos pacotes, das promoções? Como fazer as melhores escolhas, como saber o que presta e não presta, do que são feitas as coisas, que causas e valores defendem as marcas, com quais nos identificamos? E não é bom ver que os produtos se vão aperfeiçoando, cuidando para que nada nos falte, perseguindo a nossa felicidade e bem-estar?
E ao ouvir tudo isto que me dizem concluo que afinal não: não é o meu trabalho que sustenta e promove o consumo, é a ingenuidade da multidão.