15.8.16

A felicidade, graças a Deus

A mulher do senhor Pereira nunca fez questão de ser feliz, basta-lhe que os outros a suponham feliz. Pertence àquela vasta e insuspeita categoria de pessoas que asseguram a manutenção do sistema e tornam dispensável a tirania e o policiamento escancarados. Por ser oposta à natureza de todos os seres, a sua moral é desumana e inflaciona o valor da segurança em detrimento do livre arbítrio. É normal estas pessoas tornarem-se arrogantes, provindo o seu complexo de superioridade da certeza de que aos descendentes não deixarão vergonhas, divórcios ou dívidas, mas uma casa e um pezinho de meia que dignifique o nome da família e mantenha o respeito através das gerações.
A felicidade é um desejo leviano, uma inconsequência e uma fonte de frustrações. Por si só, poderá constituir uma meta? Como, sendo tão ambíguo o seu significado? Diga uma pessoa para si mesma o meu sonho é ser feliz e passará os seus dias aos ziguezagues, sempre negando uma coisa para alcançar outra, caindo em abismos por querer livrar-se de grilhões, afundando-se por recusar morrer à sede. Oh, não! Não é assim com a mulher do senhor Pereira! A prudência e o calculismo mataram-lhe os talentos, esfriaram-lhe os afetos, tiraram-lhe o direito de se revoltar contra a traição, mas deram-lhe o que pediu: estabilidade. Pergunte-se-lhe como vão os filhos e ela, compondo com muito jeitinho a cabeleira de negro falso, responderá que as raparigas, licenciadas, casadas e já mães
, graças a Deus. E o rapaz... bom, tendo o seu feitio, tem também os seus direitos. Afinal, qual é o filho bem amado que não torna sistematicamente à casa materna para se consolar com a melhor comidinha e ter a roupa lavada como deve ser? Às vezes vai ela a casa dele fazer uma limpeza geral, que as empregadas hoje em dia só varrem por onde passa a procissão. É com gosto, naturalmente. E o marido? Ora, a prova de que está muito bem casada é que aos sessenta e seis anos ainda não precisou de aprender a mudar uma lâmpada nem de se preocupar com assuntos de bancos, graças a Deus
A mulher do senhor Pereira não sabe que eu sei do dia em que ela premiu a tecla verde do telemóvel dele e escutou aquele cumprimento amoroso, cheio de uma quentura que ela jamais soube dar ou receber. Por isso, quando me encontra aproveita para exercitar mais um pouco a sua arrogância. Amiúde dirige-se aos meus filhos como coitadinhos e, mais pelo sentido do dever do que por honesta preocupação, se algum dia a menina precisar de alguma coisinha... Está convencida de que fomos vítimas de uma enorme e irreparável desgraça. Mas eu penso igual acerca dela, apenas me inibo de lhe aplicar aquilo a que Agostinho da Silva chamava de "suplementos de humilhação", essa falsa generosidade que se inclina à pena por não ter outro motivo além do engrandecimento próprio.
A mulher do senhor Pereira não é rara nem se apresenta com originalidade. Sofre de um mal comum, que contamina silenciosamente e com mais facilidade do que se supõe. E ri com espalhafato, ri de uma ponta à outra da rua, ri entrando nos cafés, nos cabeleireiros, no pronto-a-vestir, ri para que toda a gente saiba que, graças a Deus, não há nódoa que lhe caia no pano.