15.7.16

Respirar

O mais velho atribui-me a virtude de analisar profundamente antes de agir. Fazendo fé nas suas palavras, esse é o meu grande trunfo, o que me faz ganhar jogos, discussões e amigos. Acomodo-me no colo dele, seguro-me na musculatura das suas coxas, e confesso-lhe que não é exatamente assim, já tanto fiz por impulso, paixão, fúria, desatino e até capricho! Travo a língua a tempo e poupo-o ao que ele não tem ainda idade para entender: se tivesse profundamente analisado antes de agir, não teria tido filhos.  Mas – tola – julguei que o melhor que podia fazer pelo mundo era educar um ser humano para o bem. 
Ontem à noite, enquanto eu lhe ensinava o modo certo de respirar para aquietar as pernas e adormecer em paz, o mundo voltava a dizer que não, que é inútil, que o nosso destino é vivermos sufocados, sem pingo de sangue, sem sonho possível.

(Estás feliz, meu amor? A única coisa que eu quero é que tu sejas feliz! - sussurrava ternamente esta manhã uma mulher, falando ao telemóvel.)