28.7.16

Recordações menores

Não sei se é da pasmaceira, de ignorar a quantas anda o relógio, do borbulhar das águas que embala o espírito, mas tenho sido visitada por recordações menores, episódios distantes e de tão pouca importância que me aborreço de saber o meu cérebro ocupado com trivialidades, quando não faltam por aí grandes e nobres causas para alimentar o pensamento. Deito-me à sombra, dorida dos pequenos prazeres - doem-me as pernas de tanto pedalar, a barriga de muito comer e a cabeça de não lhe dar uso - e mal fecho os olhos, elas começam a chegar numa lentidão traiçoeira, uma puxando outra como se viessem unidas por lógicas que não distingo.
Lembro-me, por exemplo, do dia em que cuspi uma batata cozida quando comia ao balcão da dona Arminda, foi há vinte anos, um excesso de tempo para tão irrelevante memória. Expliquei-lhe que a batata sabia mal, a veneno, uma coisa terrível, engolir nem pensar. A dona Arminda empertigou-se, como se a batata lhe tivesse saído do ventre e custado uma vida de sangue e suor. Aqui é tudo muito limpinho, que é que julga? Não duvido, é só mesmo para alertar, outras podem estar iguais... Virou-me costas, a dona Arminda, praguejando entredentes, os outros é que lhe deviam e ninguém lhe pagava. Depois desta, outras recordações semelhantes vêm e dou comigo a espantá-las com gestos à volta da cabeça, num desespero miudinho de querer fugir ao que não importa nem fez diferença.

O senhor Pereira vai fazer milhares de quilómetros para se enfiar num resort de águas mornas e passarada exótica, com tudo incluído. Mais uma vez, realiza o sonho. Trabalhou muito para isto, diz a cada passo. Foram décadas e décadas a fazer horas extraordinárias, quantas vezes sem ver os filhos acordados, sacrificando até os fins de semana. Não que tivesse um cargo de responsabilidade, pelo contrário, era um funcionário comum num departamento com dezenas iguais. O que o senhor Pereira fez foi agarrar todas as oportunidades, oferecendo-se para lá da hora, disponibilizando-se em todas as situações, servindo sem bufar, sujeitando-se a tudo o que lhe acrescentasse uns contos à remuneração. Calculo que tenha sido nesse tempo que aprendeu a vergar-se e a cumprimentar, no modo baboso que lhe conheço, como está a senhora doutora? Agora, diz-me com propriedade que neste país não dá para passar férias. Uma pessoa come mal, paga muito, a água é fria, o povo não tem maneiras e somos mal tratados por qualquer funcionariozeco. Lá fora é outra coisa. São pormenores, menina, são pormenores. O modo como nos falam, a vénia que nos fazem, arranjam-se de outra maneira, bebe-se outras coisas. Não lhe digo, só penso, que ele é tolo de achar que, enfiando-se num resort, está lá fora. Mas sorrio, condescendente. Também o senhor Pereira está a tentar enxotar as suas recordações por, certamente, as cuidar menores.