18.7.16

Pudor

Durante muitos anos tive pudor em dizer às outras mulheres que podia comer do que quisesse sem engordar. Aos comentários acerca da minha magreza, eu respondia humilde, quase culpada, que era só herança genética. Não obstante esses meus cuidados, elas descuravam os seus. Muitas delas, munidas daquele extraordinário saber clínico que os maldizentes, os pessimistas e os hipocondríacos costumam debitar, diagnosticaram-me coisas terríveis: cancro, hipertiroidismo, bicha solitária, anorexia nervosa, bulimia ou mera ruindade de feitio. Falharam em tudo. Além dos diagnósticos, também prenunciaram uma série de desgraças, por estranha coincidência todas relacionadas com a minha condição de fêmea. E enumeravam-nas com altivez, como quem avisa e, por isso, meu amigo é. Infertilidade. Ou, caso assim não fosse, pelo menos impossibilidade de parir como a natureza manda. Ou, caso assim não fosse, partos demorados, sofridos e com marcas feias. Falharam em tudo. Por fim, reservaram-se a satisfação de prever a minha menopausa, lembrado-me a toda a hora que a gordura, mas mulheres, não é escolha mas destino. Falharão também. E entretinham-se olhando-me de viés, perguntando por onde me agarrava o meu homem, se eu levantava com as rajadas de vento e outras crueldades socialmente legitimadas pelo simples facto de andarem na boca das maiorias. Enquanto isso, faziam aulas de ginástica com umas bermudas de plástico que se dizia que queimavam gorduras e passavam semanas a fazer dietas à base de rissóis e folhas de alface. Não eram gordas, eram só desorientadas.
Quando, enfim, reconheci que ao meu receio de as ofender elas sempre responderiam com o que de pior reside no íntimo da condição feminina, passei a dar o troco em moeda igual e sem paninhos quentes. E passei a desfilar de cabeça alta, orgulhosa, não da minha magreza, que não é virtude nem defeito, mas daquilo em que sobre elas levo realmente vantagem: a imunidade à inveja, único pecado que nunca cometi.

E tendo escrito este texto como se me referisse sempre às mesmas mulheres, devo esclarecer que isso não é facto. Eram umas há trinta anos, outras há vinte, outras há dez, como são outras hoje. Mas é curioso que parecessem uma só, uma mulher universal, potentíssima, perversa, reencarnando e reincidindo do mesmo modo, desbocada pelas mesmas fraquezas e temores, triste de nunca ser cúmplice do corpo que Deus lhe deu para sua casa, seu abrigo e seu cuidado.
Ora, posto isto, os leitores imaginarão que sou um esqueleto ambulante, de clavículas e costelas à vista, rosto e abdómen cavados, joelhos e cotovelos como armas brancas. Podeis ficar com essa ideia, mas lembrai-vos também que toda a frustração distorce o olhar com vista ao consolo de quem dela sofre.