11.7.16

O meu país *

Quando olho para o meu país vejo uma criança a brincar descalça, com cabelos principescos, de ouro fino e delicado, mas umas unhas sujas de esgravatar a terra. Irresponsável, como se nunca mais chegasse, como se nunca mais tivesse de chegar o tempo de se preocupar com coisa alguma. Não quer saber de filhos, nem de netos, nem da vida que lhes há de dar, tem tempo para pensar nisso, um dia, quando crescer. Logo se verá. Só conta a hora que passa. Anda a correr, de papagaio de papel na mão, à espera que o vento sopre de feição. Se o papagaio cai murcho no chão, não faz mal, toca a correr para o outro lado a ver se levanta outra vez. O meu país acredita que a sorte vira. A sorte.
Quando olho para o meu país vejo-o assim infantil, descomprometido, desresponsabilizado e, no entanto, cheio de sonhos e horizontes. Mil anos de história e uma maturidade que não há forma de chegar. O meu país não cresce, não perde este hábito de pôr a língua de fora e desatar correr como se não fosse nada com ele para depois, logo a seguir, aparecer a desfazer-se em lágrimas e beicinhos. Tenho até medo que, por um qualquer fenómeno sobrenatural, o meu país salte diretamente desta infância mental para a menopausa e fique seco, estéril, flácido. E tão exausto que prefira morrer. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma alegria espontânea e genuína, contudo uma insistente tendência para cruzar os braços e fazer birra. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma lucidez, uma sabedoria, um conhecimento original que me encanta, contudo uma permanente tentação por transgredir, desrespeitar, fazer de conta que não sabia de nada. E como todas as crianças, o meu país tem um sorriso que, no final, me enternece e me faz cair de joelhos: é o seu gosto húmido a sal, o cheiro da maresia, o namoro fiel entre o verde e o azul, a língua exata, exigente e expressiva e uma verdade confortável onde posso encostar-me e sossegar de vez em quando. Então, desculpo-o por tudo e percebo porque é que somos sangue do mesmo sangue.

* post de 2010