25.7.16

Biquíni

Nove horas da manhã, a luz ainda ao comprido, e o casalinho namora sentado na beira da piscina. Namora é modo de dizer, que mal se tocam, ele é que se inclina a pretexto de sussurros e enrosca o nariz nos caracóis dela, que ri de favor, sem se virar. Vai insistindo ele no seu jogo de sedução e, como é rapaz novo, presumo que esteja na posse de competências que bastem para dobrar uma mulher à roda dos vinte, mas a indiferença dela tem causa superior: é o biquíni que não está bem. Vai com uma mão ao soutien, penteia com os dedos as franjinhas que oscilam sobre a lisura do ventre. Ai, que chatice, desabafa alto para ninguém. Ele inclina-se de novo, olha de viés para o peito dela, que é rijo e generoso, diz-lhe mais qualquer coisa. Ela ajeita agora as alças. Não contente, desfaz o laço na nuca, volta a fazê-lo.
- Estás bem... - diz-lhe ele em tom apaziguador.
Não, talvez não. As franjinhas estão outra vez desalinhadas e a simetria parece não estar garantida, porque ela puxa para a direita, depois ajusta para a esquerda, por fim enfia as mãos por dentro e acomoda melhor os seios. Ele continua a falar-lhe baixinho, roça um ombro, pelo sorriso se vê que o palavreado é quente. Ela, se o ouve é mal e com interesse nenhum. Pelo menos mais três vezes penteia as franjinhas, ajeita as alças, puxa para um lado e repuxa para o outro, impacienta-se, bufa. Nada do que ele diga o faz merecer, sequer, um breve olhar, um sorriso de cumplicidade.
É dos livros que o mais comum é o inverso: são elas que falam, contam e divagam, enquanto eles se ausentam, libertando a mente em campos relvados, automóveis potentes, rabos de outras saias ou mesmo superiores preocupações com assuntos de finanças e gestão. Mas aquilo a que muitas mulheres já se habituaram, talvez poucos homens se submetam. Este, pelo menos, farta-se agora de falar e não ser escutado.
- Deixa-te mas é de merdas! Achas que com umas mamas dessas alguém repara no biquíni?
Levanta-se, ergue os braços e cai na água sem fazer ondas, como um sabre afiado. Só volta a vir à tona quando está bem longe, na outra ponta do tanque, e de lá lhe despacha um aceno antes de tornar a mergulhar.