29.7.16

Prematuro equinócio

A cabeleireira espanta-se de me ver entrar tão antes do equinócio. Mãos na cintura, testa franzida, é com desconfiança que me pergunta se já venho para a poda. Não, não há podas, desta vez  a coisa é a valer. Solto o cabelo, explico o que quero, ela entusiasma-se, mas depois:
- E não se vai arrepender?
Arrependo-me de uma única coisa na minha vida, já tem mais de vinte e cinco anos e ainda hoje me persegue. Um corte de cabelo não está ao nível. É o que penso para me tranquilizar. A ela, garanto que está decidido, entrego-lhe o champô e acomodo-me.
- Arrependido deve estar a esta hora o Professor...
Fala a senhora a quem a manicura desbasta as garras.
- Qual professor? - a cabeleireira penteia-me o cabelo com a ternura de uma despedida, antes de lhe meter água.
- O Professor!
- O marido da doutora Laura?
- Marido que, a bem dizer, por um triz deixava de ser.
A manicura suspende o trabalho e inclina-se para ouvir melhor. A cabeleireira começa a lavar-me mansamente. Eu fecho os olhos e suspiro, certa de que vem aí novela.
- Ele tinha outra...
- A sério? Que estranho! Isso não é de homem! - ironiza a manicura, retomando o trabalho com energia dobrada.
A cabeleireira, apaziguadora, busca uma verdade que dê mais conforto:
- Isso deve ser má língua.
- Foi a doutora Laura que descobriu. Meteu-se a mexer no telemóvel dele e estava lá tudo, uma pouca vergonha, tratavam-se por amorzinho e tudo...
- E ela, que é inteligente, pôs-lo fora de casa, não? - a manicura insiste na ironia.
Não, a coisa passou-se de modo diferente. São outras as palavras que a senhora usa, mas esta a história que contam: a doutora Laura confrontou o Professor, primeiro ele encolheu-se de vergonha, depois foi tomado por umas ganas e disse que se tinha apaixonado, e perdidamente, como nunca antes lhe acontecera, que lhe pulsava no corpo um sangue novo, desconhecido, e no espírito sentia a garra e a alegria dos que se creem eternos. Um homem para lá dos cinquenta, um Professor, um pai de filhos, falando como um garoto sem norte.
- E a doutora Laura? - a cabeleireira ampara-me a cabeça, limpa-me e conduz-me até ao espelho.
Coitada, desfez-se num pranto ao vê-lo tão seguro e decidido, começou a gritar assim que percebeu que, sem querer, precipitara a desgraça. Tivesse ficado quieta e calada e talvez o preservasse até à morte. Na manhã seguinte, ao sair para o trabalho, ele disse que o mais honesto era cada um seguir a sua vida. Ela atirou-se ao chão, agarrou-se-lhe ao tornozelo, implorou, pediu desculpa por qualquer falha ou defeito, lembrou-lhe a dor que causaria aos filhos e tudo o mais que lhe ocorreu no cume do delírio: recordações, promessas, dinheiros, favores...
- Eu julgava que a doutora Laura era uma mulher com dignidade... - a manicura, desolada.
- E é! Quem não tem dignidade é o Professor! - acusa a senhora.
A cabeleireira põe a tesoura a trabalhar. Os meus longos cabelos vão desfalecendo no mosaico. Folheio uma revista para não me enfrentar no espelho. E depois? Uma miséria. O Professor a tentar sair de casa e ela agarrada ao tornozelo dele, chorando como uma perdida, varrendo o chão com o próprio corpo, implorando-lhe que não a deixasse, perdoar-lhe-ia a infidelidade e nunca mais se falava no assunto.
- Pois, e foi a correr contar-le a si e a mais quantos? - alvitrou a manicura. É a pessoa mais lúcida daquele salão. Jovem, desbocada, trôpega na gramática, nem sempre casa o verbo com o sujeito, fraca nos pronomes, mas pouco lhe escapa.
- Precisou de desabafar, coitada. Andava que fazia pena. Felizmente, tudo se resolveu.
- Separaram-se? - pergunta a cabeleireira, apreciando-me de todos os ângulos. Fecho a revista, olho o espelho, estranho o novo corte mas não a resposta da senhora:
- Nãããããão... ele ficou!
- E a outra?
- Deixou-a!
- Eu cá não confiava! - a manicura, entredentes.
- Ah, mas foi mesmo à frente da doutora Laura, que ela obrigou-o. Ele pegou no telefone, ligou-lhe e disse que acabava ali, que a família era tudo e o casamento era para toda a vida.
- Ai, não me faça rir... - o gozo da manicura está na fronteira da indignação.
Desconfortável na cadeira, enojada, submeto-me aos últimos retoques quando entra a dona Maria Isabel. Abençoada mulher, desta vez veio e conto com ela para desmontar o circo e refrear a multidão, como é seu hábito. Mas a dona Maria Isabel atravessa o salão como se fosse mouca, ignora os comentários e as interjeições em torno da doutora Laura e do Professor e vem cumprimentar de beijinho a cabeleireira. Depois olha-me profundamente através do espelho, pousa a mão sobre o meu ombro nu. E com dois dedos maduros, sólidos, coroados de pedras muito antigas, levanta-me o queixo e vira-me ligeiramente a cabeça, como se me preparasse para o retrato da minha vida.

28.7.16

Recordações menores

Não sei se é da pasmaceira, de ignorar a quantas anda o relógio, do borbulhar das águas que embala o espírito, mas tenho sido visitada por recordações menores, episódios distantes e de tão pouca importância que me aborreço de saber o meu cérebro ocupado com trivialidades, quando não faltam por aí grandes e nobres causas para alimentar o pensamento. Deito-me à sombra, dorida dos pequenos prazeres - doem-me as pernas de tanto pedalar, a barriga de muito comer e a cabeça de não lhe dar uso - e mal fecho os olhos, elas começam a chegar numa lentidão traiçoeira, uma puxando outra como se viessem unidas por lógicas que não distingo.
Lembro-me, por exemplo, do dia em que cuspi uma batata cozida quando comia ao balcão da dona Arminda, foi há vinte anos, um excesso de tempo para tão irrelevante memória. Expliquei-lhe que a batata sabia mal, a veneno, uma coisa terrível, engolir nem pensar. A dona Arminda empertigou-se, como se a batata lhe tivesse saído do ventre e custado uma vida de sangue e suor. Aqui é tudo muito limpinho, que é que julga? Não duvido, é só mesmo para alertar, outras podem estar iguais... Virou-me costas, a dona Arminda, praguejando entredentes, os outros é que lhe deviam e ninguém lhe pagava. Depois desta, outras recordações semelhantes vêm e dou comigo a espantá-las com gestos à volta da cabeça, num desespero miudinho de querer fugir ao que não importa nem fez diferença.

O senhor Pereira vai fazer milhares de quilómetros para se enfiar num resort de águas mornas e passarada exótica, com tudo incluído. Mais uma vez, realiza o sonho. Trabalhou muito para isto, diz a cada passo. Foram décadas e décadas a fazer horas extraordinárias, quantas vezes sem ver os filhos acordados, sacrificando até os fins de semana. Não que tivesse um cargo de responsabilidade, pelo contrário, era um funcionário comum num departamento com dezenas iguais. O que o senhor Pereira fez foi agarrar todas as oportunidades, oferecendo-se para lá da hora, disponibilizando-se em todas as situações, servindo sem bufar, sujeitando-se a tudo o que lhe acrescentasse uns contos à remuneração. Calculo que tenha sido nesse tempo que aprendeu a vergar-se e a cumprimentar, no modo baboso que lhe conheço, como está a senhora doutora? Agora, diz-me com propriedade que neste país não dá para passar férias. Uma pessoa come mal, paga muito, a água é fria, o povo não tem maneiras e somos mal tratados por qualquer funcionariozeco. Lá fora é outra coisa. São pormenores, menina, são pormenores. O modo como nos falam, a vénia que nos fazem, arranjam-se de outra maneira, bebe-se outras coisas. Não lhe digo, só penso, que ele é tolo de achar que, enfiando-se num resort, está lá fora. Mas sorrio, condescendente. Também o senhor Pereira está a tentar enxotar as suas recordações por, certamente, as cuidar menores.

25.7.16

Biquíni

Nove horas da manhã, a luz ainda ao comprido, e o casalinho namora sentado na beira da piscina. Namora é modo de dizer, que mal se tocam, ele é que se inclina a pretexto de sussurros e enrosca o nariz nos caracóis dela, que ri de favor, sem se virar. Vai insistindo ele no seu jogo de sedução e, como é rapaz novo, presumo que esteja na posse de competências que bastem para dobrar uma mulher à roda dos vinte, mas a indiferença dela tem causa superior: é o biquíni que não está bem. Vai com uma mão ao soutien, penteia com os dedos as franjinhas que oscilam sobre a lisura do ventre. Ai, que chatice, desabafa alto para ninguém. Ele inclina-se de novo, olha de viés para o peito dela, que é rijo e generoso, diz-lhe mais qualquer coisa. Ela ajeita agora as alças. Não contente, desfaz o laço na nuca, volta a fazê-lo.
- Estás bem... - diz-lhe ele em tom apaziguador.
Não, talvez não. As franjinhas estão outra vez desalinhadas e a simetria parece não estar garantida, porque ela puxa para a direita, depois ajusta para a esquerda, por fim enfia as mãos por dentro e acomoda melhor os seios. Ele continua a falar-lhe baixinho, roça um ombro, pelo sorriso se vê que o palavreado é quente. Ela, se o ouve é mal e com interesse nenhum. Pelo menos mais três vezes penteia as franjinhas, ajeita as alças, puxa para um lado e repuxa para o outro, impacienta-se, bufa. Nada do que ele diga o faz merecer, sequer, um breve olhar, um sorriso de cumplicidade.
É dos livros que o mais comum é o inverso: são elas que falam, contam e divagam, enquanto eles se ausentam, libertando a mente em campos relvados, automóveis potentes, rabos de outras saias ou mesmo superiores preocupações com assuntos de finanças e gestão. Mas aquilo a que muitas mulheres já se habituaram, talvez poucos homens se submetam. Este, pelo menos, farta-se agora de falar e não ser escutado.
- Deixa-te mas é de merdas! Achas que com umas mamas dessas alguém repara no biquíni?
Levanta-se, ergue os braços e cai na água sem fazer ondas, como um sabre afiado. Só volta a vir à tona quando está bem longe, na outra ponta do tanque, e de lá lhe despacha um aceno antes de tornar a mergulhar.

18.7.16

Pudor

Durante muitos anos tive pudor em dizer às outras mulheres que podia comer do que quisesse sem engordar. Aos comentários acerca da minha magreza, eu respondia humilde, quase culpada, que era só herança genética. Não obstante esses meus cuidados, elas descuravam os seus. Muitas delas, munidas daquele extraordinário saber clínico que os maldizentes, os pessimistas e os hipocondríacos costumam debitar, diagnosticaram-me coisas terríveis: cancro, hipertiroidismo, bicha solitária, anorexia nervosa, bulimia ou mera ruindade de feitio. Falharam em tudo. Além dos diagnósticos, também prenunciaram uma série de desgraças, por estranha coincidência todas relacionadas com a minha condição de fêmea. E enumeravam-nas com altivez, como quem avisa e, por isso, meu amigo é. Infertilidade. Ou, caso assim não fosse, pelo menos impossibilidade de parir como a natureza manda. Ou, caso assim não fosse, partos demorados, sofridos e com marcas feias. Falharam em tudo. Por fim, reservaram-se a satisfação de prever a minha menopausa, lembrado-me a toda a hora que a gordura, mas mulheres, não é escolha mas destino. Falharão também. E entretinham-se olhando-me de viés, perguntando por onde me agarrava o meu homem, se eu levantava com as rajadas de vento e outras crueldades socialmente legitimadas pelo simples facto de andarem na boca das maiorias. Enquanto isso, faziam aulas de ginástica com umas bermudas de plástico que se dizia que queimavam gorduras e passavam semanas a fazer dietas à base de rissóis e folhas de alface. Não eram gordas, eram só desorientadas.
Quando, enfim, reconheci que ao meu receio de as ofender elas sempre responderiam com o que de pior reside no íntimo da condição feminina, passei a dar o troco em moeda igual e sem paninhos quentes. E passei a desfilar de cabeça alta, orgulhosa, não da minha magreza, que não é virtude nem defeito, mas daquilo em que sobre elas levo realmente vantagem: a imunidade à inveja, único pecado que nunca cometi.

E tendo escrito este texto como se me referisse sempre às mesmas mulheres, devo esclarecer que isso não é facto. Eram umas há trinta anos, outras há vinte, outras há dez, como são outras hoje. Mas é curioso que parecessem uma só, uma mulher universal, potentíssima, perversa, reencarnando e reincidindo do mesmo modo, desbocada pelas mesmas fraquezas e temores, triste de nunca ser cúmplice do corpo que Deus lhe deu para sua casa, seu abrigo e seu cuidado.
Ora, posto isto, os leitores imaginarão que sou um esqueleto ambulante, de clavículas e costelas à vista, rosto e abdómen cavados, joelhos e cotovelos como armas brancas. Podeis ficar com essa ideia, mas lembrai-vos também que toda a frustração distorce o olhar com vista ao consolo de quem dela sofre.

15.7.16

Respirar

O mais velho atribui-me a virtude de analisar profundamente antes de agir. Fazendo fé nas suas palavras, esse é o meu grande trunfo, o que me faz ganhar jogos, discussões e amigos. Acomodo-me no colo dele, seguro-me na musculatura das suas coxas, e confesso-lhe que não é exatamente assim, já tanto fiz por impulso, paixão, fúria, desatino e até capricho! Travo a língua a tempo e poupo-o ao que ele não tem ainda idade para entender: se tivesse profundamente analisado antes de agir, não teria tido filhos.  Mas – tola – julguei que o melhor que podia fazer pelo mundo era educar um ser humano para o bem. 
Ontem à noite, enquanto eu lhe ensinava o modo certo de respirar para aquietar as pernas e adormecer em paz, o mundo voltava a dizer que não, que é inútil, que o nosso destino é vivermos sufocados, sem pingo de sangue, sem sonho possível.

(Estás feliz, meu amor? A única coisa que eu quero é que tu sejas feliz! - sussurrava ternamente esta manhã uma mulher, falando ao telemóvel.)

12.7.16

Um homem

Um homem vindo dos arredores da capital bateu-me. Bom, não em mim, mas no meu carro. Muita gente passou e não parou a não ser para apreciar o dano material, que o dano causado aos nervos importa pouco. Até os conhecidos, depois de satisfeita a curiosidade, logo seguiram acenando até amanhãEra dia de jogo da seleção, havia muita pressa e ansiedade nas ruas. 
Quase uma semana depois, recebo, desse homem que me bateu e prontamente pagou, a mais inesperada e improvável de todas as mensagens. Chegou-me às primeiras horas da manhã, valeu para o resto do dia, valerá por toda a semana e por muitos anos.
Não sei se é mais triste ou mais reconfortante isto de encontrar em estranhos o que dos que estão perto muitas vezes não se recebe. O mundo raramente é o que julgamos. O melhor é não julgar coisa alguma, manter a confiança mas nunca a desbaratar.

11.7.16

O meu país *

Quando olho para o meu país vejo uma criança a brincar descalça, com cabelos principescos, de ouro fino e delicado, mas umas unhas sujas de esgravatar a terra. Irresponsável, como se nunca mais chegasse, como se nunca mais tivesse de chegar o tempo de se preocupar com coisa alguma. Não quer saber de filhos, nem de netos, nem da vida que lhes há de dar, tem tempo para pensar nisso, um dia, quando crescer. Logo se verá. Só conta a hora que passa. Anda a correr, de papagaio de papel na mão, à espera que o vento sopre de feição. Se o papagaio cai murcho no chão, não faz mal, toca a correr para o outro lado a ver se levanta outra vez. O meu país acredita que a sorte vira. A sorte.
Quando olho para o meu país vejo-o assim infantil, descomprometido, desresponsabilizado e, no entanto, cheio de sonhos e horizontes. Mil anos de história e uma maturidade que não há forma de chegar. O meu país não cresce, não perde este hábito de pôr a língua de fora e desatar correr como se não fosse nada com ele para depois, logo a seguir, aparecer a desfazer-se em lágrimas e beicinhos. Tenho até medo que, por um qualquer fenómeno sobrenatural, o meu país salte diretamente desta infância mental para a menopausa e fique seco, estéril, flácido. E tão exausto que prefira morrer. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma alegria espontânea e genuína, contudo uma insistente tendência para cruzar os braços e fazer birra. Como em todas as crianças, vejo no meu país uma lucidez, uma sabedoria, um conhecimento original que me encanta, contudo uma permanente tentação por transgredir, desrespeitar, fazer de conta que não sabia de nada. E como todas as crianças, o meu país tem um sorriso que, no final, me enternece e me faz cair de joelhos: é o seu gosto húmido a sal, o cheiro da maresia, o namoro fiel entre o verde e o azul, a língua exata, exigente e expressiva e uma verdade confortável onde posso encostar-me e sossegar de vez em quando. Então, desculpo-o por tudo e percebo porque é que somos sangue do mesmo sangue.

* post de 2010

7.7.16

Paz

Tendo para a crença de que tudo se organiza naturalmente de forma a que as coisas e as pessoas cheguem, cumpram e vão, no tempo certo. Inútil é meter as mãos e forçar a entrada ou a saída seja do que for, seja de quem for, nas nossas vidas. Desejar é legítimo, rejeitar idem, mas na prática um e outro são puro desgaste enquanto as condições se opõem às nossas vontades. 
Não insistir, portanto, para que alguém saia das nossas vidas. A paciência é virtude sábia, terreno fértil. Antes esperar que um deslize as faça escorregar para o lugar do nosso esquecimento. E perdoar, não para que sigam elas em paz mas para que nos seja possível, a nós, evoluir num caminho benigno e tranquilo. 
Constato esta verdade com alívio, recordando como quase todas as batalhas em que entrei me deram vitórias breves e de todas as vezes em que aguardei obtive paz duradoura.