28.6.16

Pontualidade

De manhã cedo, antes do trabalho, às vezes vou ver o mar. Desço até ao Castelo do Queijo e sigo devagar pela marginal até à fortaleza de São João. A essa hora, a Foz é zona livre de perigos. Ou já trabalham ou dormem ainda aqueles que transformam as esplanadas em recintos de feira e desfilam bronzeados, roupas e automóveis na passarela de asfalto. Está tudo limpo, a luz é branca e honesta, as águas rebrilham com a subtileza das mais sofisticadas preciosidades, a ondulação é só um afago, ninguém diria que, ano após ano, este mar engole mais uma dose de areal e que, em dias feios, chega a varrer a avenida. 
Não me perco de amores pelo mar. Ainda que me fascinem as suas profundezas, à superfície vejo-o como uma metáfora de certos modos de vida. Para lá e para cá, numa rebentação inútil, levantando e assentando areias, bramindo noite e dia, humores instáveis, ora enchendo ora vazando conforme as luas, quantas vezes tomando o que não lhe pertence para no dia seguinte se pôr ajoelhadinho e humilde, a chamar e a pedir perdão. Prefiro os rios, que têm origem, rota, destino, os seus cursos são como o sangue a pulsar, vivo e rico, nas artérias do mundo. Em todo o caso, a marginal deserta às primeiras horas da manhã faz o mar parecer mais belo e eu encanto-me por esse horizonte mal definido, que olho com a testa franzida e a alma cheia de inquietações miúdas.
Quando chega a altura, volto, penetro na densidade urbana, encaixo-me no cortejo, submeto-me ao para-arranca, resigno-me à inversão de importâncias. A cada pausa nos semáforos, deito o olho para o lado e lamento pelos que tomam um pequeno-almoço de iogurte magro e bolachinha em andamento, pelos casais que se despedem com beijos de raspão e pelas mulheres que, entre todas as artes possíveis, aprimoram a de fazer um risco preciso de eyeliner ao volante. Talvez durmam demasiado, penso. Eles dirão, certamente, que vivem é demasiado. E eu, que por esta hora já estou mais do que lavada, arranjada, de barriga cheia e olhos bem dilatados, vou devagar, não tenho pressa de chegar aonde sou paga para convencer os outros a fazer o que eu desprezo. Ainda assim, sou pontual.