17.6.16

Perfumes e companhias

Dizem que os perfumes identificam quem os usa, mas a minha ideia é oposta. Vendem-se em frascos, às coleções, às séries, em quantidades industriais, não vejo como isso possa dar um toque pessoal a quem quer que seja. Estranho que se pague às largas dezenas de euros para ter o mesmo cheiro do vizinho, do colega, do patrão, da atriz da novela, da designer de moda. Podeis poupar-me à explicação de que a fragrância se torna única ao reagir com a pele e que o que nuns fica enjoativo noutros lembra a frescura de prados verdejantes. O único aroma que nos individualiza é o nosso. Andando bem frescos e lavadinhos, somos mais atraentes, interessantes e fica garantida a singularidade que, a todo o custo, procuramos nas lojas e pela qual gostamos de pagar.
É fácil concluir que dispenso perfumes e que tenho um nariz cheio de cismas, relutâncias e sensibilidades. Acontece, porém, que não consigo livrar-me deles porque é costume a gente usá-los de um modo que se impõe e contamina. Não bastassem já as roupas e a quinquilharia, não fosse suficiente falar alto, bater os tacões, interromper, buzinar, ainda é preciso um cheiro que berre ao mundo "eu estou aqui!". E logo às primeiras horas da manhã reparo que, só por ter tocado no puxador da casa de banho, na máquina do café, por ter apertado a mão a este ou àquele, por não sei quem me ter afagado um ombro, sou uma mescla de Jean Paul Gaultier, Dolce & Gabbana, Chanel, Zara Kids, Frozen ou coisa que o valha. Ao almoço, o meu palato é corrompido pela profusão de fragrâncias químicas. O gosto de uma alheira com grelos e ovo estrelado deforma-se. O aroma do azeite com alho e coentros é abafado. Até uma punheta de bacalhau perde para um Armani qualquer. O que sinto não é a presença de gente e menos ainda de indivíduos - afinal, quantos cheiram ao mesmo? 
Por isso me dá para rir quando ela, à passagem do diretor, se põe muito excitadinha a suspirar ele cheira tão bem! E ele, consciente, encorpa-se, simula indiferença com um aceno preguiçoso. Nenhum dos dois se lembra que o cheiro não é dele, é do frasco de perfume. E milhões usam igual. Sorte teria ela se ele lhe desse a conhecer o seu próprio aroma, o original, o verdadeiro.