3.6.16

Os dias que passam e nos deixam

Comovi-me de ouvi-lo dizer-me uns versos de Pessoa. Orgulho tolo de mãe não foi, que para dizer uns versos basta lê-los e ter memória que os guarde. Minha riqueza de menino, também não. Versos de Pessoa estão à disposição de todos os meninos e qualquer um os recita, disseca e comenta quanto à métrica e às figuras de estilo. Comovi-me de, naquele instante, ao jorrarem os versos da sua boca com o ritmo e a entoação de um humilde dizer, sem farsa nem drama, estarmos juntos num lugar onde ainda não nos havíamos encontrado. Olhos nos olhos, pois somos agora da mesma altura e não voltaremos a ser – ele avançará, eu ficarei. É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte*
O meu irmão costuma dizer-me tu choras por tudo e por nada, caramba! Mas é falso. Eu não choro por tudo, eu só choro por nada. Sólida num funeral, numa despedida, na notícia de uma doença grave, talvez até na iminência do fim do mundo, porém escangalho-me, dissolvo-me diante de uma perfeição, miudeza que seja, coisa que aconteça sem deixar rasto ou herança, um nadinha ou ainda menos, uns versos que um menino diga e que qualquer outro pode dizer.

*Sou lúcido, Álvaro de Campos