27.6.16

O massacre

Parece-me agora é hábito massacrar as pessoas que não têm animais tanto quanto era costume massacrar-se as mulheres que não tinham filhos. Eu cá antipatizo com insistências e perseguições deste e de todos os géneros, pois sabe de si cada um e não vejo porque há de ser valoroso quem tem filhos e bichos e não há de sê-lo, por outros e vários motivos, quem quer viver por sua conta.
Vem isto a propósito da cena a que assisti na bucólica esplanada onde gosto de me sentar ao fim de semana por meia horinha, tempo suficiente para beber um café, ler as gordas dos jornais e vasculhar absurdos nas conversas que giram em redor. Juntaram-se na mesa ao lado quatro jovens casais, três deles trazendo cachorrinhos, dois com filhos, um deles sem filhos, cães, gatos, chinchilas ou periquitos, conforme adiante percebi. O encontro foi festivo, muitos abraços e beijos, certamente ali tinha havido ausência e saudade. Desfiaram os comentários habituais: os miúdos estão enormes, cortaste o cabelo, estás preto, que fizeste para emagrecer? Serenado o entusiasmo dos cumprimentos iniciais, mandaram vir os cafés e meteram-se à conversa. Desde logo os cachorrinhos tornaram-se o centro das atenções. Primeiro comentaram as delícias do pelo e do olhar, depois avançou-se para a troca de experiências, contando uns aos outros da dedicação incondicional, das façanhas e gracinhas dos seus bichos, do nascer ao pôr-do-sol. Por fim, lançaram-se nas opiniões acerca dos modos de cuidar, tratar, educar, limpar, exercitar. 
Ao casal sem animais não restava senão ir acenando com a cabeça para não ficar de todo à margem e, simpaticamente, demonstrar algum interesse pela conversa. Mas eis senão quando a interpelação de um dos jovens do grupo os faz passar, num segundo, de espetadores a protagonistas:
- E vocês, quando é que pensam em arranjar um bicho para vos alegrar os dias?
- Os nossos dias já são bem alegres, garanto-te. – entreolharam-se, cúmplices, quase maliciosos. Ele pousou-lhe a mão na perna, fincou-lhe os dedos na carne.
- Sim, mas uma coisinha destas preenche-nos, estás a compreender? – acrescentou uma amiga.
- Não dá, animais nem pensar, é muita responsabilidade e nós ainda agora fomos morar juntos. A casa nem está toda mobilada, calma lá...
- Que tem isso a ver? – de novo o amigo.
- Olha, não queremos estar presos, para já é viajar, divertirmo-nos, andar com os nossos projetos...
- Isto não é uma prisão, é um amor... E há sempre alguém que aceita e cuida dos animais nas férias... – outro amigo.
- Está bem, mas é sempre preocupação. Por enquanto não é o que queremos.
- Por cada preocupação que te dá, um animal compensa-te com mil alegrias. Olha pra isto, olha pra esta coisa mais linda –  e a amiga que dizia isto embalava o cachorro no colo, dando-lhe beijos repenicados à troca de sôfregas lambidelas.
Entretanto as crianças esparramadas nas cadeiras, dedilhando fervorosamente nos tablets, olhos convergentes, pés balouçando. O casal perdia as forças para continuar a discutir, ela chamou o funcionário e pediu uma água com gás e limão, ele acendeu um cigarro e desviou o assunto, comentou o tempo quente, como este Verão tardara! Mas um dos outros, ainda cheio de fôlego, decidiu falar ao coração:
- Há tantos animais abandonados... Vocês não têm pena? Se cada pessoa adotasse um, olha o bem que se fazia...
- Sim, mas é preciso dedicar-lhes tempo e nós...
- Se calhar isso é uma visão um bocado egoísta, não? –  outra vez a amiga.
- De qualquer forma, neste momento não temos condições para... 
- Nunca ouviram dizer que onde comem dois comem três? –  o amigo, obtendo o coro dos restantes. 
Levantou-se o casal. Que desculpassem, mas estavam a precisar de esticar as pernas e ainda tinham de passar no supermercado. Com um aceno vigoroso e apressado: um dia destes ligamos para combinar qualquer coisa.
Ligam, ligam.