9.6.16

Estrada nacional

Uma mulher caiu de joelhos na berma da estrada nacional, sentido inverso ao dos peregrinos. Bateu com a têmpora esquerda no muro, abriu um lanho até ao olho. Logo parou um portentoso camião e dele saiu o motorista, acorrendo com a rapidez, a inteligência e o sangue-frio de um bombeiro. Do outro lado, veio uma jovem loira, de trança e calças floridas. À mulher, corria o sangue por entre os dedos da mão com que amparava a cabeça, pingando-lhe no colo e empapando o avental de xadrez. A jovem loira ajoelhou-se também para conversar com ela, enquanto o motorista tocava nas casas próximas em busca de auxílio. Atrás do camião foram-se acumulando outros veículos, ignorantes do que se passava. Em menos de um ai, a fila chegou à estação de serviço. Depois começaram a ganir as buzinas e era quem mais tentava passar sem ver por onde, menosprezando regras, prioridades e intenções alheias, que é sempre grande a urgência daquele que nunca olha para o lado e sempre lhe pertencem as questões de vida ou de morte e sempre é valioso o seu tempo, acima do dos outros.
Em sentido contrário, seguimos com tranquilidade ao perceber que a mulher estava bem entregue. Parar, só por curiosidade leviana ou por alguma dessa pena que a gente se põe a sentir quando precisa de encontrar consolo na própria sorte. Na nossa faixa, é provável que ninguém se tenha atrasado. Mas o motorista do camião poderá sofrer as consequências por qualquer coisa que agora não me ocorre nem consigo nomear. A rapariga loira, aonde quer que fosse chegará tarde. Os outros tarde chegarão, não lhes há de ter valido a impaciência e o escarcéu das buzinas. Havia uma mulher de joelhos na berma da estrada nacional, a sangrar.