5.5.16

Poeira molhada

Ao sair do edifício, a mulher deteve-se, inspirou como se precisasse de recuperar a vida e revirou os olhos: ah, que cheirinho a terra molhada! 
Tola! A terra molhada só cheiram as intimidades do mundo: campos, aldeias, florestas. Aí dentro, há entre a chuva e a terra uma troca justa de favores e propósitos que mantém a harmonia, gera flor e fruto. Aqui, na cidade, onde a chuva serve para fazer correr água imunda nas sarjetas e atrapalhar o trânsito, o cheiro é apenas a poeira molhada, mas essa reles imitação é quanto basta para exaltar os sentidos de quem os tem dormentes e acordar memórias de liberdade e inocência. Qualquer canteirinho húmido pode provocar uma catarse.
A mim, este cheiro a poeira molhada, que é urbano e inconsequente, lembra-me o dia em que me disseste, com a devida cautela para não detonar as minhas fúrias, que as coisas não podiam ser conforme eu queria, nem sequer conforme esses teus sonhos, tão vagos que jamais seriam senão sonhos. Ficou-me. É por isso que, ao contrário do cheiro a terra molhada - que faz vibrar em mim uma felicidade pura e me recorda o essencial do universo -, o cheiro a poeira molhada lembra-me a supremacia do que é material, a autoridade do medo, o poder daquilo que há muito deixou de me fascinar ou servir. 
Quando chove na cidade, é só isto: a poeira levanta-se, os sentidos inquietam-se, mas tudo torna a assentar.