13.5.16

Os sapatos da viúva

Lá vai a viúva, muito emproadinha, cheia de vaidade nos atributos que Deus lhe deu e a maturidade não lhe tira, nádegas firmes e redondas, seios espertos, o nariz farejando adiante, uma pele cuja luz eu me apanho a invejar de boca escancarada.
Há nela uma elegância sem época, indiferente a modas, que a livra da massa e da vulgaridade, como se não pertencesse, não devesse nem temesse. Podia ser mulher de qualquer tempo: deusa pré-histórica da fertilidade, rainha do Barroco, musa de Hitchcock, embalagem plástica do futuro. Seria igualmente sólida e ajustada.
No modo de se vestir e apresentar, a viúva não é de gritaria ou escarcéu. A excentricidade, manifesta-a em sussurros e esgares. Pode prender a atenção apenas com o perfume, a cor rara do batom ou, como hoje, um par de sapatos pretos com corações vermelhos. Atravessa a rua de paralelo em cima deles, num equilíbrio que poucas mulheres alcançam, a coluna vertebral como uma estaca bem ancorada no ventre da Terra, nenhuma parte do corpo é frouxa ou indecisa, os olhos não se distraem e as mãos têm lugar certo. É difícil fazê-la rir e também não há indícios de que chore. 
O senhor Pereira é agora indiferente à sensualidade desta rigidez. Nada obteve dela a não ser estímulos à imaginação. Eu continuo a fascinar-me ao vê-la, numa busca vã do enredo ideal para a encaixar. Mas a viúva escapa a qualquer história, entra no SUV, acelera, desaparece nas voltas da rotunda.