27.5.16

O tempo vai mudar

O senhor Pereira é um homem de ambições menores: um carro vistoso, férias em hotéis com praia de acesso restrito, a vitória nas discussões do quotidiano. Junta uns trocos e realiza as duas primeiras. Levanta um pouco a voz e alcança a terceira. Assim, poupa-se ao sofrimento, a devaneios e frustrações, e por isso mantém a coluna direita, olha em frente, não aponta para o chão como é tendência dos deprimidos nem para as nuvens como fazem os sonhadores. Que o amor não lhe assista, que a mulher não se lhe entregue, que as filhas não lhe falem, que o filho não o admire, importa? Ninguém vê, alguns suspeitam mas nenhum pode jurar. A vizinhança elogia-lhe a organização e o pragmatismo. Ele limpa as poeiras do dia-a-dia com gestos simples. Conselhos para a vida não, mas ajuda para pequenos enguiços e obstáculos muitos lhe pedem. É um homem que resolve. Tem destreza para contas de cabeça, sabe quantas horas de voo são daqui à República Dominicana e quando se deve mudar a correia de distribuição. Temos de estar preparados para tudo, diz ele, agradecendo o crédito que lhe dão. Em público, a mulher manifesta algum orgulho nisso, mas não basta. Preferia que ele gostasse de conversar sobre os divinos mistérios da matemática, o colonialismo na América Central, ou a desolação dos mundos onde um automóvel dura até ser só carcaça. Porém, desistiu e esqueceu. Largos anos de casamento ensinaram-lhe a vantagem das futilidades e a simplificação da vida. Com um gesto preguiçoso e bem treinado, diz-lhe:
-  Miro, põe um casaquinho pelas costas que o tempo vai mudar.