24.5.16

No lugar de Julieta

Fez-se com brevidade o luto por Julieta. O meu sentimento de culpa pela queda fatal de que foi vítima ficou resolvido. E fui aceitando a ideia de que, ainda que eu tivesse redobrado os cuidados, acariciado as folhas, sussurrado palavras de incentivo, não a espevitaria. Para me tranquilizarem, os meus filhos foram-me lembrando o que eu própria lhes digo: que as coisas da natureza são imperfeitas e transitórias, cheias de caprichos e sinais que escapam à sensibilidade humana. Culpa, remorso e revolta são gastos inúteis de energia.
No lugar de Julieta será, assim, colocada uma nova orquídea. Decidi, porém, que há de ser de outra cor porque o branco, apesar de luminoso e inspirador, tem uma inocência que fragiliza. Preciso de uma orquídea forte, de boa linhagem, que tenha teimosia de viver, nada de tiques de aristocracia e futilidades. Será violeta. E há de dar-me mais paz do que preocupações. 
O mais velho, fascinado por tragédias de amor, sugeriu desde já que lhe chamássemos Inês e, numa visão que me estremeceu da cabeça aos pés, pressenti uma vida tão breve como a de Julieta, culminando com penas e ais. Nem pensar. Era o que faltava, ver de novo uma bela flor morrer pela insistência numa paixão sem espaço nem futuro. 
Entre Dalila e Madalena, será feita a minha escolha. Certa de que não a livro da morte, conto, ao menos, livrá-la de tolices.