10.5.16

Cortejo

Quando eu era pequena, a minha mãe levava-me todos os anos para ver o cortejo académico e ficávamos quase sempre na curva de Sá da Bandeira, junto ao teatro onde se exibiam obscenidades. Naquele tempo, a cidade parava a ver os estudantes desfilar e punha-se muita fé nas ironias e parangonas com que decoravam os carros. Achava eu então que os universitários eram seres iluminados, que o ensino superior lhes abria a consciência cívica e intelectual, graças ao contacto com saberes elevados e docentes esclarecidos. O que eu via naquele desfile, na cantoria, nas encenações humorísticas e na criatividade sem censura, era uma promessa de viragem, um romantismo que havia de mudar o mundo, limpá-lo de pó e equívocos, fazê-lo sair da linha de montagem, desatar-lhe os grilhões, arrancá-lo aos espartilhos. Encantava-me. 
A minha mãe ajudava à missa: tinha também um fascínio pela vida académica, havia nela uma nostalgia mal resolvida que a visão das capas negras, das fitas e das cartolas inflamava. Muitos, muitos anos antes, a minha avó cortara-lhe as asas na hora em que manifestou o desejo de ir para Coimbra estudar engenharia. Iria para a universidade, sim, mas no Porto, sob apertada vigilância. Rapariga sozinha e longe é que não. Assim, a minha mãe cursou o que não queria e jamais terminou ou exerceu. À custa desse amor proibido, nunca consumado, criou belíssimas odes à cidade do Mondego, na sua letra quase pictográfica, em papel de carta. E naqueles dias da semana académica ela recordava, assistindo, o que ficara por cumprir. 
Ano após ano, fomos aguardando com expectativa diferentes cores, conforme os meus irmãos iam crescendo, tomando o seu rumo e ganhando um posto no imenso cortejo. Começámos por procurar o vermelho e branco. Depois o azul escuro. A seguir o azul claro. Por fim o vermelho sólido. E parecia-me tudo muito lindo, as flores de crepe eram briosas, as parangonas cheias de graça, o INEM era chamado poucas vezes, respiravam-se grandes esperanças.
Quando chegou a minha vez, do desfile já sobrava mais vidro partido, poças de vomitado e comas alcoólicos do que outra coisa qualquer. No primeiro ano, os meus colegas de curso foram manchete do jornal com um título que ainda hoje recordo: Alunos de Comunicação Social portam-se como primatas irracionais. Não quis fazer parte do cortejo, pus-me à margem assim que a minha doce inocência se desfez e percebi que, afinal, a vida universitária não era a antecâmara de um mundo melhor, mas uma passagem, desesperançada e desajustada, entre a idade dos sonhos e o tempo da resignação.