6.5.16

Cartão de cidadão

Sonhei esta noite que tinha perdido o cartão de cidadão. Vasculhei a carteira para responder à ordem da agente de polícia mas só me saíam documentos de validade expirada, o meu primeiro bilhete de identidade, a carta de condução, o cartão de contribuinte, cartões de atleta, recibos desbotados, papéis com recadinhos amorosos, moedas de um cêntimo. Perante o meu desespero, a agente afinava a sua autoridade, endireitando mais e mais as costas. Olhava-me com a distância com que se olham espécies opostas, estranhas, sem matéria ou sentimento em comum. Eu ia gaguejando banalidades, não compreendo, estava mesmo aqui. E nos olhos dela pairava, terrível, a dúvida a meu respeito. 
Tremia-me o corpo, esvaziando-se de sangue e presença, não pelo medo de ser punida, mas pela angustiante hipótese de ter deixado de existir e de me cobrarem quinze euros para voltar a ser quem sou, dar a medida exata do meu corpo, fazer prova daqueles que me conceberam, não bastando que os seus traços vivam em cada um dos meus, e lembrar que sou gémea do solstício de inverno, depois de mim a luz venceu e os dias só cresceram. Como um saco plástico vazio, frouxo, vulnerável aos caprichos do ar, creio que naquele instante preferi morrer. 
O acordar não foi instantâneo. Demorei a livrar-me dos dedos da agente de polícia no meu braço, como um torniquete, e da minha mão paralisada, roxa, sem pingo de vida.