31.5.16

Aproveitamento escolar

Por causa de uma conversa sobre o Tempo, desassosseguei o mais velho. Culpa dele. Conhecendo-me há tantos anos, devia ter adivinhado que a inocência do seu comentário podia ser a ponta de um novelo que eu iria puxar, durante os dez quilómetros de percurso, até instalar a dúvida e o caos. Dois mil e dezasseis não está a passar, está a voar. Gastámos o caminho à volta disto, o para-arranca para colocar hipóteses, as estradas abertas para arriscar respostas – e poupo os leitores aos detalhes da reflexão não só para evitar o enfado mas também porque, sendo coisa nossa, tem valor que não pretendo dividir. 
A espaços, o silêncio. Então, em que estás a pensar? Nisso, não consigo parar de pensar nisso do Tempo, com quem é que eu posso falar melhor? Talvez com a professora de Física, sugeri sem convicção. Riu-se com aquele desdém adolescente que não sei se mais irrita ou mais promete. Essa?! Mandá-lo-ia sentar-se e calar, anotar o sumário, copiar as fórmulas do quadro. Imita-lhe a voz nasalada e os olhos revirados: lá vem o menino com disparates, depois queixe-se se não tiver aproveitamento. Rimos. E concordamos que "aproveitamento" é apenas uma entre as muitas palavras ocas, ridículas, que suportam a máquina do ensino. Repito que o assunto é do âmbito da Física. Inútil. Ele é que sabe. E a professora de Ciências? Mais aberta, sim, talvez se interessasse, mas anda sempre cheia de pressas, deixá-lo-ia pendurado. Falar sobre o Tempo com quem a toda a hora se queixa de não o ter? 
Já perto da escola, avisa-me que abordará o tema com o professor de Língua Portuguesa. Franzo a testa, interrogo, que tem Camões a ver com isto? E vêm ao caso aliterações ou complementos oblíquos? Ele é o único que não anda aqui só para dizer cenas, é um homem preocupado com a nossa inteligência, tenho de aproveitar.