14.4.16

O gordo e o magro

O mais velho contou-me: para não se ofender o gordo, havia eu, o magro, de morrer. Não se estranhe já a conjugação verbal, que mais adiante ficará esclarecida. Imenso, vermelho, transpirado, sem forças para se carregar, o tal gordo vive desde sempre com as dificuldades que se sabe e a que ninguém é indiferente, uns por genuína solidariedade, outros por mero dever social. Se é falha congénita de metabolismo, ignoro, mas, ainda que seja, parece que na família ninguém se importa, pois é comum ver-lhes os lábios e as mãos reluzindo da gordura e do sal com que o empanturram. Perdeu autoridade sobre o próprio corpo. Depois da educação física está mais morto que vivo e, para se recompor, mete a mão à mochila e de lá desenterra o que aos outros, mesmo aos gulosos, causa espanto: cola zero, folhadinhos de salsicha, sandes de chocolate empacotadas. 
No dia em que o país inteiro se meteu a ensaiar os comportamentos a ter durante um sismo, partilhava o mais velho a mesa da sala de aula com o gordo. Dada a ordem, a turma tratou de se pôr a salvo e, entre empurrões, risadinhas e sabe-se lá que segredos e atrevimentos, cada um acomodou-se como pôde por baixo da sua mesa. Com muita dificuldade o gordo se deixou escorregar pela cadeira e, depois de um combate que o deixou afogueado, arfando e sem fala, acabou por se arranjar, monopolizando todo o espaço disponível por baixo da mesa e deixando o mais velho de fora, sozinho no meio da sala, como cachorro esquecido na aflição de uma fuga. 
Por esta altura, fazendo-se realidade do que à imaginação se obrigou, estaria já a terra toda a tremer para ajustar as entranhas, e as lâmpadas, o projetor, as calhas dos estores estariam caindo com a facilidade da chuva, estilhaçando-se, quebrando sem ver o quê. Por esta altura também, achando-se vulnerável à catástrofe simulada, o mais velho fez notar à professora o facto de não lhe ter sobrado espaço para se abrigar e ela, coitada, tolhida por medos, pruridos, vícios de peninha e solidariedades de duvidosos princípios: shiuu! respeite o seu colega!
Não se pode verdadeiramente ensaiar uma tragédia. O simulacro não contempla o desespero e o pânico. Na hora da verdade, falaria mais alto o instinto do que as boas maneiras e trocar-se-iam os paninhos quentes pelas armas que melhor garantem a sobrevivência. Mas em imaginação, o mais velho, magro de se lhe notarem as irregularidades ósseas, porém forte, ágil, resistente e sadio, morreu. Seria muito feio se de outro modo acontecesse.