1.4.16

O filho de Magda

Do filho de Magda nunca ninguém disse que havia de ir longe. Nem ela o quereria. Para ir longe é preciso, às vezes, caminhar sozinho ao longo das raias do perigo e da loucura, esgotar forças na contracorrente e, pior, desapegar-se do chão e da casa. Fora longe o filho de Alice e ela nunca mais o vira. Fora longe o filho de Marília e morreu do coração antes dos quarenta. Fora longe o filho de Teresa e, com a fama, tinham vindo mulheres a mais, debilidades nervosas, incertezas financeiras. 
Para que ele aprendesse a proteger-se, tal como umas ensinam orações, Magda ensinou o filho a nunca destratar as mulheres, contrariar os patrões ou dar aos outros o que não tivesse garantia de retorno. Que desse pão esperando ter pão de volta, sim. Mas se desse o seu tempo e o seu afeto, não contasse ser retribuído. Não pode cobrar-se a dívida do que não se palpa. Como medir os montantes, fazer as contas, calcular juros?
O rapaz cresceu transparente e moderado, ninguém dava por ele. Nunca teve um assomo, foi imune à paixão, resistiu aos devaneios da juventude. Foi um bom aluno, com solidez na caligrafia, pontualidade e uma atenção que só os muito devotados prestam. Porém, falho de talentos, incapaz de um rasgo, de uma surpresa, de uma tirada que fizesse cair o queixo, fosse por inteligência, criatividade ou humor. Voluntário na distribuição de roupas e comida aos pobres, virava costas e passava de fininho se ouvisse chorar um colega. De resto, nem sequer aprendera a consolar, era desajeitado nos abraços que só praticava em festas e funerais. Beijos, os da mãe, com conta, peso e medida, que o amor é muito bonito mas não resolve a vida de ninguém, andor mas é estudar para ser gente e ganhar o seu. 
Ele obedeceu mas Magda, desaquietada por vocação, temerosa dos acasos e das ratoeiras do destino, nem assim. Na busca de mais certezas, levou-o à bruxa, ela pôs-lhe as cartas, debitou trivialidades mais prováveis do que a chuva e, no fim, há de casar e ter três filhos. Magda pagou o que foi pedido por aquele derradeiro consolo e com os anos soube que não tinha sido intrujada. Ele casou e teve os filhos prometidos, dois de uma assentada e um fora de tempo, quase neto. Morreu ela primeiro, conforme quis. Não havia de vê-lo sofrer e partir como sucedera às amigas. Finou-se no alívio de o saber seguro entre quatro paredes, com a cama quente, as contas pagas, os filhos limpos e um patrão tão bondoso, que lhe dava os vinte e dois dias de férias e o deixava despegar às seis e meia. Ninguém tinha o que dizer dele. Infelizmente, nunca ninguém disse dele o que quer que fosse.