20.4.16

O filho de Magda (4)

Na morte de Magda, ninguém o viu chorar. Mas durante muito tempo andou macambúzio, abusou da cerveja e do sofá, cumpriu a vida como um autómato, tanto se lhe dava que chovesse ou fizesse sol. Verdade seja dita, nem era grande desvio. Caráter marcante nunca tivera, da sua boca jamais saíra coisa que impressionasse. Entusiasmo? Por nada. Tão imune à paixão como ao desespero. 
A mulher, que já então tinha a memória dorida de um par de estalos, tirou algum alívio desse luto introvertido. Parecia que ele nem existia e, não existindo, evitava lembrar-se ela a toda a hora do erro que cometera. Quantos anos tinha? Vinte? Vinte e dois? Era uma rapariga tão bonita, tão esperta. Podia ter-se dado a outro. Tinha-a cortejado o Vasco, mas andava com um pé no Porto a estudar engenharia, por certo dava-se às noitadas e a outras raparigas, não era de confiar. Chegara a namorar o Carlos, mas achava-o muito instável e ambicioso, acossado por ideias de mudança, esquecer-se-ia dela quando realizasse os seus sonhos, melhor cortar o mal pela raiz. Teria até dado uma oportunidade ao Álvaro, bem quisera ele, mas o Álvaro escrevia no jornal todas as semanas sobre as vergonhas políticas lá da terra, com modos críticos e atrevidos, tinha inimizades, estava sujeito. Uma mulher não quer nada disto. 
Dizia-lhe o pai: de tanto escolheres hás de ficar sozinha. Sozinha é que não. Então, um dia, a mãe: já reparaste no Jorge Manuel, que é tão bom rapazinho? Tinha maneiras, era discreto, paciente e responsável, tão amigo de Magda, nunca se ouvira dizer dele o que quer que fosse. Só a madrinha tinha contrariado a maioria. E para que serve um bom rapazinho?, perguntara. A vida é paixão e combate, um bom rapazinho não se aguenta, falta-lhe fôlego, coragem e até defeitos. Depois, puxara a afilhada para um canto:
- E diz-te quem sabe, minha querida Luísa: um bom rapazinho nunca será um bom amante. Cuidado.
Com efeito, o primeiro beijo pareceu-lhe a lambidela de um cachorrinho. Acabou por rir disso muitos anos depois, quando exausta de chorar.